Por Marco Severini — La Via Italia
O sinal mais claro de que a situação no Irã caminhava para um ponto de ruptura não emergiu apenas das ruas ou das vozes da oposição, mas do âmago do sistema financeiro: o colapso do Ayandeh Bank. Ao final do ano passado, o banco — administrado por figuras próximas aos aiatolás e aos Pasdaran — revelou perdas equivalentes a quase US$ 5 bilhões em créditos deteriorados. O rescaldo foi imediato: o Estado incorporou o que restava da instituição e recorreu à impressão massiva de moeda para cobrir o rombo, uma manobra que adiou a implosão aparente sem resolver sua causa estrutural.
Este episódio não foi um mero acidente contábil; transformou-se em símbolo e catalisador do aprofundamento econômico que hoje alimenta protestos considerados a maior ameaça ao regime desde 1979. O colapso bancário expôs uma arquitetura financeira frágil, pressionada por anos de sanções, concessão indiscriminada de crédito e dependência recorrente da moeda impressa para sustentar o consumo e programas estatais. Fontes indicam que pelo menos outras cinco instituições estariam em situação análoga, esperando apenas o próximo movimento decisivo no tabuleiro para ruir.
O timing foi particularmente cruel para Teerã. A credibilidade do governo havia sido enfraquecida por um conflito de doze dias envolvendo Israel e os Estados Unidos, em junho, que evidenciou lacunas na proteção da população. Simultaneamente, a liderança iraniana manteve posição inflexível nas negociações nucleares, afastando a possibilidade de alívio das sanções. Em novembro, Estados Unidos e Israel deixaram claro que reações militares voltariam a ser consideradas caso Teerã retomasse certas atividades balísticas ou nucleares — uma sombra estratégica que reduziu ainda mais o espaço de manobra económico-diplomático.
Na frente cambial, o rial entrou em espiral de desvalorização. A aplicação rigorosa de medidas de enforcement por parte dos EUA interrompeu fluxos críticos de dólares, em especial provenientes do Iraque, reduziu receitas petrolíferas em moeda forte e bloqueou reservas mantidas no exterior. O resultado é uma tesitura sem saída: reservas inacessíveis, receitas em queda e uma população cada vez mais privada de meios básicos.
As ruas de Teerã começaram a refletir essa nova geografia de descontentamento: centenas de comerciantes — tradicionalmente alheios às grandes mobilizações políticas — tomaram as avenidas em pedidos diretos por ajuda e por reformas econômicas. O colapso do Ayandeh Bank, fundado em 2013 por Ali Ansari a partir da fusão de duas entidades, tornou-se um pretexto e um espelho. Para além das cifras, revelou-se como o ponto de fratura que desnuda as fragilidades institucionais: bancos geridos por elos do regime, políticas fiscais e monetárias que funcionam como remendos sobre fissuras tectônicas, e uma população afetada na vida diária.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um movimento que redesenha fronteiras invisíveis de influência dentro do Irã. Não se trata apenas de equilíbrio macroeconômico, mas de legitimidade política: quando as engrenagens financeiras falham, o apoio social que sustenta o eixo de poder se desgasta. A resposta do regime — infundir liquidez, absorver ativos problemáticos, reprimir manifestações — pode ganhar tempo, mas também reforça a narrativa de privilégios e proteção seletiva das elites.
Seis meses atrás, um conflito regional testou a capacidade de resposta militar; hoje é a economia que testa a coesão interna. O próximo capítulo dependerá de três variáveis: a capacidade do Irã de restabelecer fluxos em moeda forte, a disposição internacional para oferecer uma janela diplomática e a resiliência das instituições bancárias locais. No tabuleiro, cada jogada política ou econômica terá efeitos em múltiplas frentes — e a fragilidade do sistema financeiro é, neste momento, a peça mais vulnerável.


















