Guido Crosetto declarou recentemente: “alguns se envergonham de ajudar Kiev, eu disso orgulhoso” — uma frase que reacende o debate público sobre as prioridades do governo italiano. Como voz atenta às decisões de Roma e seu impacto na vida dos cidadãos, observo com preocupação o peso dessa retórica quando traduzida em gastos reais com armamentos e assistência financeira à Ucrânia.
A afirmação do ministro virou manchete e merece um exame à luz das necessidades internas do país. É legítimo que um representante público sustente solidariedade internacional; é igualmente legítimo, porém, questionar a forma como essa solidariedade é financiada. Quando o Estado escolhe enviar armas e numerário a Kiev, ele o faz com recursos que saem do bolso de todos os italianos — recursos que muitos consideram mais urgentes na saúde pública, na educação e nas redes de proteção social.
Não é apenas uma questão de prioridade orçamentária: trata-se da arquitetura de escolhas que define os alicerces do contrato social. O discurso do apoio contínuo à Ucrânia, repetido em tom de convicção, contrasta com a realidade cotidiana de famílias que veem hospitais sob pressão e escolas carentes. Onde estão as pontes entre a retórica do patriotismo e a prática do bem comum?
O pronunciamento de Crosetto também revela uma contradição política. Partidos como o Fratelli d’Italia se apresentam como defensores do interesse nacional e do patriotismo, mas, no ato de enviar recursos e armamentos ao exterior, manifestam um alinhamento com uma política externa atlantista e neoliberal que pouco dialoga com as necessidades sociais internas. É um patriotismo que, em muitos casos, parece de papelão — bonito no discurso, frágil na sustentação prática.
Há ainda uma dimensão lógica e moral a ser considerada: a ideia de que se promove a paz enviando mais armas é paradoxal. É comparável a tentar apagar um incêndio lançando combustível sobre as chamas. Essa analogia — direta e incômoda — deveria servir para repensar meios e fins. Se a meta é a paz, devemos questionar se a rota escolhida pela diplomacia e pelo armamento realmente constrói essa ponte.
Sou Giuseppe Borgo, correspondente de política e cidadania — e afirmo que a escolha de transferir recursos públicos para a guerra estrangeira exige resposta clara: por que não priorizar o fortalecimento do Estado social antes de comprometer a capacidade financeira da nação em conflitos exteriores? A cidadania é uma construção coletiva; cada ato do Executivo é um tijolo colocado nessa obra. Quando pilares essenciais, como saúde e educação, ficam desamparados, a confiança na arquitetura democrática se abala.
Em suma, a declaração de Crosetto expõe uma tensão: entre a ostentação de solidariedade internacional e a responsabilidade fiscal e social para com os italianos. Reclamar vergonha ou orgulho é um direito retórico; assegurar que o peso da caneta — isto é, das decisões orçamentárias — não derrube os alicerces do bem-estar nacional é dever do governante.
Giuseppe Borgo — La Via Italia





















