Detido e depois libertado em Istambul no âmbito de uma investigação por tráfico e posse de drogas, Can Yaman voltou a ocupar as manchetes — não apenas como notícia de polícia, mas como uma figura que já sedimentou no imaginário televisivo italiano. A sua trajetória, que vai das soap turcas às grandes produções italianas como “Viola come il mare” e o recente reboot de “Sandokan”, é também um espelho do modo como a cultura pop reescreve identidades e projeta atores numa espécie de arquétipo de desejo.
O episódio policial aconteceu “anteontem à noite”, segundo reportes, e Yaman foi liberado posteriormente em Istambul. A sua presença ontem no programa C’è posta per te (Maria De Filippi, Canale 5) foi mantida por Mediaset, que esclareceu que a gravação ocorreu antes da detenção. Este detalhe é revelador: vivemos num ecossistema mediático em que o timing da notícia altera a recepção pública tão rapidamente quanto a edição altera a narrativa televisiva.
Nascido há 36 anos em Istambul, filho de um pai advogado e de uma mãe professora de letras, Can Yaman traz na biografia um cruzamento de códigos. Formado em Direito — tendo frequentado o liceo italiano de Istambul e dominando bem a língua —, abandonou a carreira jurídica após seis meses para dedicar-se à representação. Essa passagem confere ao seu percurso um curioso reframe: a lei como primeiro roteiro e a encenação como escolha de vida.
As primeiras experiências vieram nas soap de 2014, mas foi em 2017, com Bitter Sweet – Ingredienti d’amore, que conquistou atenção. O salto internacional consolidou-se entre 2018 e 2019 com Day Dreamer – Le ali del sogno, série que o tornou reconhecível mundo afora. Em 2019, a sua estética clássica valeu-lhe o título de homem do ano pela GQ.
Quando aportou na Itália, a notoriedade acelerou. Em 2021 protagonizou uma campanha publicitária para uma conhecida marca de pasta italiana, ao lado de Claudia Gerini, sob a direção do conterrâneo Ferzan Ozpetek — um encontro que parece mais um curto‑circuito entre duas cinematografias do Mediterrâneo. Ainda em 2021, fez um cameo em Che Dio ci aiuti 6 e protagonizou a campanha “Vieni in Turchia con me“, promovida por consulados e embaixadas para valorizar cultura, gastronomia e turismo da Turquia.
Além do trabalho artístico, Yaman fundou no verão de 2021 a organização sem fins lucrativos Can Yaman for Children ETS, dedicada ao apoio socio‑sanitário de crianças e adolescentes — um capítulo que humaniza a sua imagem pública e contrapõe o brilho das telas ao compromisso social.
Entre 2022 e 2024 consolidou o vínculo com o público italiano como protagonista, em duas temporadas, da série “Viola come il mare”, ao lado de Francesca Chillemi, e em 2025 liderou a minissérie Il Turco. O ponto alto recente foi o reboot de “Sandokan” na RAI, no qual assumiu um papel icónico anteriormente pertencente a Kabir Bedi — um gesto de continuidade intergeracional que o público acolheu com índices de audiência notáveis: picos de share superiores a 34% e até 4,2 milhões de espectadores.
Da sua vida pessoal, pouco se sabe com confirmação. O que ganhou maior visibilidade foi o namoro com a apresentadora Diletta Leotta, em 2020, amplamente documentado em imagens nas redes sociais. Fora isso, o silêncio profissional e privado costuma produzir mais mitos do que certezas.
Se olharmos além da face bonita e dos trending topics, Yaman representa uma espécie de roteiro oculto da sociedade contemporânea: a fusão entre soft power cultural, comércio da imagem e papéis que ressignificam ícones. A sua história — agora marcada por uma investigação judicial temporária — insere‑se nesse cenário de transformação, mostrando como a celebridade é, muitas vezes, simultaneamente espelho e reflexão do nosso tempo.






















