Por Chiara Lombardi — Em uma montagem que funciona como um espelho cortante do nosso tempo, o diretor Antonio Latella apresenta até 18 de janeiro, no Teatro Astra de Turim, Gli angeli dello sterminio, adaptação do último romance de Giovanni Testori. A peça, com dramaturgia de Federico Bellini, transforma a cena teatral num cenário apocalíptico e coletivo: uma Milano maledetta onde cinquenta centauros semeiam o terror entre ruínas que lembram um filme distópico.
Latella aproxima-se do texto de Testori como quem desmonta um roteiro oculto da cidade: “Testori escreveu esta obra em 1992, um ano antes de morrer, enquanto estava internado em condições graves no San Raffaele de Milão — e talvez não seja casualidade”, reflete o diretor. Para ele, o livro é um adeus, um gesto que conecta o autor ao além, um monólogo-populista onde os mortos parecem assumir o palco em um verdadeiro girone dantesco. O pano de fundo histórico — o escândalo de Tangentopoli — transforma a metrópole num organismo em metástase: “Milão é o símbolo de toda Cidade maldita”, diz Latella.
O incêndio apocalíptico que incendeia a narrativa parte do carcere di San Vittore, onde um jovem morre por overdose. A dinâmica entre vida e morte, culpa e memória, produz uma dramaturgia em que as vozes do passado regressam para interrogar o presente.
No elenco, o ator Francesco Manetti interpreta o cronista que narra os acontecimentos — um alter ego de Testori que guia o público entre lembrança e profecia. Matilde Vigna dá vida a uma cartomante que estabelece o contato com os mortos, enquanto Alfonso Genova empresta sua voz às almas que retornam. A escolha de Latella por evitar uma cenografia literal reforça a leitura simbólica: “Não criamos uma cenografia realista — a única presença dominante é uma grande marmitta de motocicleta: um tótem que, nos momentos-chave, deixa sair um fumo como de Purgatório”, explica o diretor.
Essa economia de cenário converge com a ideia de teatro como ritual. A peça se apresenta como uma espécie de mise-en-scène xamânica — e Latella admite isso: “Entre meus espetáculos, este é o mais xamânico”. O teatro torna-se então instrumento de exorcismo coletivo e de reflexão política: uma fábula dura sobre a cidade como corpo doente.
Paralelamente a Gli angeli dello sterminio, Latella segue em turnê com Wonder Woman, em cartaz a partir de 15 de janeiro no Teatro Vascello de Roma. Inspirado em um fato de jornalismo — o caso de 2015 em Ancona, quando uma jovem peruana foi vítima de estupro coletivo — o texto confronta o público com os mecanismos de descrédito que a vítima sofreu (a alegação absurda de que seria “demasiado masculina” para ser atraente) e com a subsequente reversão judicial pela Corte de Cassação, que condenou os agressores.
Latella assume um viés mais político em ambos os trabalhos: “Procuro dar um sentido político ao meu trabalho, provocando a reflexão sobre fatos ocorridos ou possíveis”, afirma. Quanto à alcunha de “visionário”, o diretor sorri e desconstrói o estereótipo: “Visionário? Sou um diretor que não se droga — minha visão vem do coragem de tomar posição perante o texto, observando-o do meu ângulo. Às vezes dá certo, às vezes não”.
O resultado é um espetáculo que não se limita à evocação literária de Testori: é um reframe da realidade, uma cena onde o passado, o contemporâneo e o imaginário se sobrepõem — e onde a cidade, como num filme noir, revela-se um personagem ferido, pulsante e memorável.

















