Por Stella Ferrari — Em um movimento que combina curiosidade científica e audácia midiática, o youtuber Zach Armstrong afirma ter desvendado a fórmula secreta da Coca‑Cola após 140 anos de sigilo. Com tom objetivo e metodologia laboratorial, Armstrong publicou um vídeo que mostra a análise por espectrometria de massa e os testes sensoriais utilizados para reconstruir a mistura aromática que, segundo ele, confere o sabor único à bebida.
No material, o criador expõe as estruturas químicas e descreve as tentativas sucessivas até obter uma réplica que, conforme seu relato, é quimicamente equivalente ao composto protetivo da marca. A composição apresentada combina óleos essenciais e aditivos: destacam‑se notas de limão, lima, um toque de laranja, óleo de tea tree (para remeter ao sabor das folhas de coca), canela cassia, noz‑moscada, coentro e fenchol.
Além dos componentes aromáticos, a receita completa sugerida por Armstrong incluiria uma solução aquosa de vinagre, glicerina, cafeína, ácido fosfórico, baunilha, corante caramelo e taninos de vinho. Segundo o youtuber, voluntários — apresentando‑se como provadores sem saber a origem da amostra — não perceberam diferenças relevantes entre a bebida original e a réplica testada.
Até o momento, a empresa dona da marca optou pela discrição e não emitiu um posicionamento público sobre as alegações. Resta saber se esse é um avanço autêntico na compreensão da fórmula ou uma aproximação experimental significativa, mas incompleta.
O episódio tem relevância histórica. A Coca‑Cola nasceu em Atlanta em 8 de maio de 1886, idealizada pelo farmacêutico John Stith Pemberton como um tônico medicinal destinado a combater fadiga e enxaqueca. A primeira versão combinava extratos das folhas de coca e das nozes de cola, xarope de açúcar e água gaseificada. Na Itália, a marca desembarcou em 1919, com produção nacional iniciada em 1927.
Como economista e estrategista, observo duas pistas importantes neste caso. Primeiro, a descoberta (ou alegada descoberta) tem impacto simbólico sobre a marca: trata‑se de um ativo intangível cuja proteção é parte do design de políticas empresariais que mantêm a vantagem competitiva — um verdadeiro elemento do “motor da economia” do setor de bebidas. Segundo, a repercussão mostra como a aceleração de tendências digitais pode desafiar procedimentos tradicionais de proteção industrial, exigindo uma calibragem entre propriedade intelectual, comunicação corporativa e gestão de risco reputacional.
Seja qual for o desfecho, o caso ilustra a tensão entre segredo industrial e tecnologia acessível de análise química. A comunidade científica amadora ganhou ferramentas precisas; as empresas, por sua vez, precisam de respostas rápidas e estratégicas — é uma questão de alta performance corporativa e de governança, onde os “freios fiscais” não resolvem tudo: trata‑se de governança de marca e inovação.
















