Por Chiara Lombardi — Observadora cultural
Do tranquilo refúgio de um oratório salesiano às luzes quentes das bilheterias italianas: assim se lê a trajetória de Gennaro Nunziante, o cineasta que se tornou o arquiteto dos sucessos populares com o parceiro de cena Checco Zalone. Com Buen camino já somando €66.109.747 nas contas de caixa (dados atualizados), e com quase dez milhões arrecadados por Io sono la fine del mondo com Angelo Duro na lista dos mais vistos de 2025, Nunziante confirma seu lugar como um dos diretores mais influentes do cinema contemporâneo italiano.
O que define esse cineasta não é apenas o sucesso de bilheteria, mas a continuidade de uma visão forjada num palco modesto: o oratório salesiano onde, criança, encontrou um padre que lhe apresentou o cinema. Nascido e criado no bairro Libertà de Bari, Nunziante — 62 anos, com raízes familiares simples (pai tapeceiro e depois ferroviário, mãe dona de casa) — construiu sua carreira passo a passo. As irmãs foram as primeiras plateias; o café-teatro e os palcos de cabaret, a escola das personagens.
Foi na vivência de cabaret, no programa satírico Il Davanti e nas TVs locais — TeleBari e TeleNorba — que Nunziante lapidou seu ofício. Autor e diretor de cults regionais, criou a dupla Toti e Tata (Emilio Solfrizzi e Antonio Stornaiolo) e exibiu um senso de humor que conversava diretamente com o público. Em TeleNorba descobriu Luca Medici, ainda sem o alter ego de Checco Zalone, atraído pelo que Nunziante chamava de seu “ouvido musical para a comédia”.
Antes da consagração com Cado dalle nubi (2009), Nunziante assinou roteiros para nomes como Cristina Comencini, Leone Pompucci e Alessandro D’Alatri — assinando três filmes com este último, participando também como ator em pequenas pontas. Essas experiências moldaram seu cálculo narrativo: uma mistura de timing cômico, observação social e um gosto por finais que limpam a cena dolorosa e oferecem um novo quadro.
No mais recente Buen camino, o toque autoral de Nunziante — que além da direção assina, com Zalone, roteiro, montagem e conceito — é claramente reconhecível. A narrativa da redenção do magnata cínico, filho de família, que se transforma durante uma peregrinação a Santiago acompanhando a filha Chanel, repousa na crença do diretor no poder do desfecho feliz: “O lieto fine é necessário para mim, porque o objetivo de nossa vida é a alegria”, chega a afirmar Nunziante ao apresentar o filme.
Há aqui uma semiótica do percurso: o roteiro como trilha, o personagem como espelho do nosso tempo em que «vivemos numa sociedade sem pais» — uma declaração que ecoa a preocupação com a identidade masculina contemporânea e com as ausências de referência. O filme responde, em termos simples e emotivos, se aquele homem partiu sendo pai sem saber que o era; e a resposta passa pela estrada, pela reconciliação e pela luz de uma possível redenção.
Nunziante é homem reservado. Prefere entrevistas locais ou em veículos de viés católico como Tv2000 e Credere. Fala pouco da vida íntima, mas se permite confidências: autocrítico como pai — “sou um pai ruim com Antonio, Rachele e Renato; minha esposa Margherita é muito melhor” — e firme na fé: “Na nulidade do homem há a revelação de Deus”. Ao mesmo tempo, reafirma que o cinema é uma arte lenta, que exige tempo e cuidado.
Enquanto as manchetes celebram números, é útil lembrar que a obra de Nunziante funciona como um roteiro oculto da sociedade: popular, mas refletido; engraçado, mas atravessado por questões sérias de pertença, autoridade e memória. Ele transforma a plateia em coautor de um final que reconcilia riso e esperança — um eco cultural que atravessa o entretenimento e toca o tecido social.





















