Por Chiara Lombardi — Em uma leitura que parece um espelho do nosso tempo, Carrozzeria Orfeo traz ao Teatro Sociale a peça Salveremo il mondo prima dell’alba, com única apresentação hoje, 15 de janeiro, às 20h30, para a seção Altri Percorsi. O espetáculo, assinado por Gabriele Di Luca — que também divide a direção com Massimiliano Setti e Alessandro Tedeschi — combina humor corrosivo e intuições sociológicas para desenhar um cenário distópico e ao mesmo tempo familiar.
O ponto de partida é quase cinematográfico: uma clínica de reabilitação de luxo instalada em um satélite no espaço. Ali, personagens que poderiam sair de um roteiro de ficção científica convivem com problemas essencialmente terráqueos — especialmente uma vasta gama de dependências: sexuais, afetivas, do trabalho e de psicofármacos. A imagem de uma clínica orbital funciona como um reframe da realidade: a distância física não afasta as patologias emocionais, antes as amplifica e torna o microcosmo humano ainda mais visível.
Di Luca define o espetáculo como um convite à reflexão sobre responsabilidade individual: “Há um chamado à responsabilidade individual”, afirma o autor. O título soa afirmativo, mas traz um ponto de interrogação implícito — e cá entre nós, há um pessimismo racional que atravessa a dramaturgia. Segundo Di Luca, a ideia não é a de salvação fácil: “Riusciremo a salvare il mondo? Secondo me, no”. Esse pessimismo tem o tom de um roteiro que prevê um grande colapso antes da recomposição — um ciclo histórico que, como em tantos filmes de fim de mundo, termina por reconstituir estruturas humanas e sociais.
O método de Carrozzeria Orfeo — ao longo de duas décadas — tem sido justamente esse: perturbar as bases burguesas com ironia e força. Obras anteriores como Animali da bar, Cous Cous Klan e Thanks for Vaselina já consolidaram a companhia como um projeto teatral que não apenas diverte, mas desinstala certezas e provoca pensamento. Não é por acaso que a montagem está classificada como “não indicada para menores de 14 anos”: trata-se de material forte, politicamente incorreto e intencionalmente provocador.
Di Luca revela que foi ele mesmo quem pediu a restrição etária: “O divieto l’ho assolutamente voluto io, in prima persona”, diz. A peça não se furta a retratar o cinismo, a vulgaridade e a mesquinharia — personagens que existam de fato no cenário social — e, portanto, exige do público instrumentos críticos para ler e compreender essas imagens exacerbadas. Em outras palavras, a obra fala a quem tem repertório para entender o porquê e, possivelmente, o que virá a seguir.
Há aqui uma dimensão quase profética, uma Cassandra contemporânea que, ao denunciar perigos como a inteligência artificial e a ameaça de conflito nuclear — temas que já pairavam quando Di Luca iniciou a escrita quatro anos atrás —, nos faz lembrar que o teatro pode ser tanto um alerta quanto um espelho. A Fondazione Teatro Donizetti segue, com convicção, uma programação que acredita na potência dessas peças: o teatro, quando bem perseguido, não prevê por dom divino, mas por sensibilidade aguçada.
Ao público de Bergamo resta a oportunidade de ver de perto essa mistura de humor e desconforto que pergunta sem oferecer receitas prontas. No melhor sentido, o espetáculo funciona como um exercício de visão crítica: aquilo que nos faz rir hoje pode ser o roteiro oculto da sociedade amanhã.
Serviço: Salveremo il mondo prima dell’alba — Carrozzeria Orfeo. Teatro Sociale, 15 de janeiro, seção Altri Percorsi, única réplica às 20h30. Classificação: não indicada para menores de 14 anos.
















