Nos anos 1980, durante um seminário na Suécia sobre emprego feminino nos serviços sociais, uma cena simples revelou um princípio poderoso: mulheres trabalhavam fora de casa em centros para idosos e creches, oferecendo cuidados de alto padrão enquanto contribuíam para a economia com salários e impostos. Esse arranjo criou um verdadeiro círculo virtuoso — melhores serviços, maior bem-estar e mais crescimento econômico. A lembrança dessa história serve como luz para refletirmos sobre o presente da Itália.
Os países escandinavos investiram cedo e de forma consistente em serviços públicos, desde os anos 1960, construindo uma base onde o cuidado se profissionalizou e gerou empregos. Em outros contextos europeus, o desenvolvimento dessa área aconteceu mais tarde e com menos recursos dos cofres públicos, resultando em um welfare mix que apoiou, em grande medida, o Terceiro Setor e a chamada economia social.
Na prática, isso significa que a presença e a qualidade de serviços como saúde, assistência e educação têm impacto direto sobre a participação feminina no mercado de trabalho. Onde esses serviços são robustos, mais mulheres podem trabalhar fora, sustentar famílias e contribuir para o Produto Interno Bruto. Onde são frágeis, prevalece o cuidado informal: muitos afazeres são empurrados para dentro de casa, mulheres ficam inativas e famílias sobrevivem com um único rendimento.
Os números europeus ilustram bem o gap. A estimativa da Comissão Europeia compara a França — um país pouco mais populoso que a Itália — à nossa realidade: na França, a economia social emprega cerca de 1,7 milhão de mulheres. Na Itália, esse setor absorve menos da metade desse contingente, aproximadamente 700 mil. A consequência é clara: menos serviços, menos vagas de trabalho, menos PIB e, em última instância, menos bem-estar social.
Nos últimos anos, houve avanços: a economia social italiana cresceu e o governo aprovou um Plano Nacional de Ação direcionado ao setor. Entretanto, esse movimento ainda não acendeu plenamente o potencial de transformação que poderia vincular trabalho feminino, desenvolvimento e prosperidade coletiva. O desafio é completar a ponte entre políticas, financiamento e práticas que tornem a prestação de serviços mais ampla, profissional e acessível.
Do ponto de vista social e econômico, investir em serviços de cuidado é semear futuro. Amplificar vagas formais nas áreas de assistência infantil, cuidado a idosos e educação não apenas libera a participação das mulheres no mercado, mas também eleva padrões, profissionaliza carreiras e fortalece o tecido social. É uma estratégia de longo prazo que ilumina novos caminhos para o crescimento inclusivo.
Para que a Itália alcance esse horizonte límpido, são necessárias ações coordenadas: políticas públicas sustentáveis, incentivos ao terceiro setor, formação profissional e reconhecimento do trabalho de cuidado como motor de desenvolvimento. A transformação não virá apenas de intenções, mas da execução consistente — recursos, governança e diálogo com as comunidades.
Ao olhar para esses desafios, devemos cultivar uma visão prática e esperançosa: mostrar que ampliar a economia social é também cultivar valores, tecer laços sociais e construir um legado que beneficia gerações. A mudança é possível quando políticas bem desenhadas encontram sociedade civil ativa e iniciativa privada responsável. Iluminar esse caminho exige coragem política e uma ambição ética para que o trabalho de cuidado deixe de ser invisível e passe a ser ferramenta de crescimento coletivo.






















