Por Chiara Lombardi — La Via Italia
Na abertura do ano legislativo, o Presidente do Uzbequistão, Shavkat Mirziyoyev, traçou um roteiro ambicioso que transforma o papel tradicional das comunidades locais no centro da política pública. Ao declarar 2026 como o Ano do desenvolvimento das mahalla e da sociedade, o mandatário sinaliza não apenas uma rodada de medidas administrativas, mas um reframe institucional: a governance comunitaria passa a ser a lente pela qual se pretende redesenhar a prestação de servizi pubblici e a participação cidadã.
Historicamente, a mahalla no contexto uzbeque funcionou como um músculo social — uma malha de relações que preserva costumes, media conflitos e assegura coesão. O discurso presidencial reconhece essa ancestralidade e a transforma em peça-chave contemporânea: não mais apenas um legado cultural, mas uma plataforma operacional para coordenar políticas sociais, entregar assistência focalizada e ampliar a voz dos cidadãos nos assuntos locais.
Ao desenhar essa estratégia, o Governo propõe uma série de ações interligadas: fortalecimento institucional das mahalla, capacitação de lideranças locais, modernização dos mecanismos de distribuição de benefícios sociais e maior transparência na governança. A lógica é clara — deslocar parte da tomada de decisão e da execução para níveis comunitários para tornar mais eficaz e sensível o atendimento às necessidades locais.
O significado dessa decisão vai além da mera descentralização administrativa. Em termos sociopolíticos, é um gesto que revaloriza formas locais de organização como um contraponto ao Estado centralizado, criando um novo contrato de convivência entre cidadania e autoridade. Se olharmos com a metáfora do cinema, é como trocar a câmera fixa do autoritarismo por várias lentes que capturam, em close-ups, as demandas e vivências dos cidadãos — um espelho do nosso tempo onde o micro passa a influenciar o macro.
Entre os princípios anunciados no discurso — legalidade, primazia dos direitos humanos, democracia, transparência e justiça social — salta a intenção de sistematizar ações de longo prazo. A nomeação de um “ano temático” não é decoração retórica: prevê-se um calendário de iniciativas, indicadores de progresso e mecanismos de responsabilização, com ênfase em proteção social às camadas mais vulneráveis.
Resta, contudo, o desafio prático: a convergência entre tradição e modernidade. Transformar a mahalla em um delivery eficiente de servizi pubblici exige investimentos em tecnologia, capacitação administrativa e, sobretudo, uma cultura de participação real, que vá além dos rituais institucionais. É aqui que se decide se a proposta será apenas um quadro estético ou um roteiro de transformação social.
Como analista cultural, enxergo essa virada como um evento semiótico relevante. A aposta nas mahalla reconfigura narrativa e memória: devolve ao local o protagonismo de interpretar e gerir a própria vida coletiva. Se o projeto avançar, poderá se tornar um modelo reaplicável em contextos onde a coesão social e a eficiência estatal não são mutuamente exclusivas — um novo gênero na gramática da governança.






















