Por Chiara Lombardi — No roteiro oculto do calendário astral, algumas festas funcionam como espelhos do nosso tempo: refletem crises, oferecem simbologias e nos lembram que o céu e a consciência humana seguem diálogos antigos. Entre elas, Sankranti (ou Makar Sankranti) ocupa um lugar singular. Celebrada quando o Sol ingressa na constelação do Capricórnio — o Makara do zodíaco hindu — essa passagem, mais do que um fenômeno sazonal, é lida pela tradição como um verdadeiro chamado à ascensão da consciência.
O termo sânscrito que dá nome ao festival, Shankramana, significa literalmente “movimento”, “mudança de direção”. Astronomicamente, marca o instante em que o astro solar inicia seu trajeto rumo ao hemisfério norte, conhecido como Uttarayana. Astrologicamente, contudo, não se trata de uma simples mudança física: é a entrada do Sol numa nova qualidade do tempo. O símbolo do Capricórnio remete à responsabilidade, à maturidade e à estrutura — qualidades que, segundo as leituras tradicionais, exigem de nós menos brilho exibicionista e mais estabilidade interior.
Nessa passagem, a energia solar deixa de ser expansiva para se tornar concentrada; não mais um convite ao espetáculo, mas à orientação. É o momento em que o impulso precisa se traduzir em direção, o calor dispersivo se transforma em luz que ordena. Lidos sob essa ótica, os rituais de Sankranti aparecem como práticas de recepção — não apenas da claridade externa, mas da luz que deve ser acolhida dentro de cada indivíduo.
No panorama contemporâneo, essa simbologia ressoa com força: vivemos uma época em que o ego, o poder e a perda da luz interior se tensionam mutuamente. Sankranti surge, então, como uma chave interpretativa e uma proposta prática, lembrando que a transformação social começa pela mudança íntima do sujeito.
É nesse enquadramento que vale recuperar o ensinamento de Sri Mataji Nirmala Devi, que interpreta o festival como um convite explícito para não apenas observar a luz, mas para torná-la parte ativa de nossa consciência. Para ela, a verdadeira criatividade nasce do amor. Nada que se pretenda perene pode brotar do ego isolado; a criação que sobrevive é a que vibra com verdade interior e serviço ao bem comum. Sem amor e pureza, o que parece inovador ou poderoso se fecha em torno de si e se perde.
Assim, a celebração de Makar Sankranti funciona também como um rito de cuidado ético: uma chamada à responsabilidade moral em tempos de grande visibilidade e efemeridade. É a lembrança de que a cultura e a arte, a ciência e as instituições só preservam significado quando enraizadas numa vibração que chamamos aqui, com precisão, de amor.
Do ponto de vista prático, as observâncias de Sankranti — que variam por região e tradição — incentivam gestos simbólicos de limpeza, partilha e renovação. Mas, se deslocarmos o foco para a escada interna, percebemos que o cerne da festa é uma proposta ética: abandonar o circuito do ego e caminhar rumo a um estado de consciência orientado, responsável e generativo.
Em tempos em que a esfera pública muitas vezes espelha-se na lógica do espetáculo, o eco cultural de Sankranti nos lembra que existe outro tipo de luminosidade — menos estrondosa, mais duradoura. É a luz que reordena, que estrutura e que possibilita a criatividade verdadeira. Como analista cultural, vejo essa festa como um convite simples e profundo: usar o movimento do céu como metáfora e técnica para um crescimento interior que reverbere no mundo.





















