Ao término da cúpula realizada em Washington no dia 14 de janeiro de 2026, entre delegações dos Estados Unidos, da Groenlândia e da Dinamarca, não foi alcançado qualquer acordo substancial. O encontro foi descrito como franco, mas as distâncias políticas permaneceram intactas: Copenhague e Nuuk reiteraram que a soberania da ilha é inegociável, enquanto Washington voltou a enfatizar que a Groenlândia constitui uma peça estratégica para a segurança nacional dos Estados Unidos.
Em resposta à estagnação das negociações, Paris, Berlim, Oslo e Estocolmo anunciaram o envio de contingentes à Groenlândia para operações de reconhecimento e cooperação militar, a pedido da Dinamarca. O desdobramento integra a exercícios conhecido como Operation Arctic Endurance e visa fortalecer a vigilância marítima e a capacidade de resposta em um palco que se tornou central na nova tectônica de poder do Ártico. Segundo fontes oficiais, os primeiros soldados franceses já estão a caminho; a Alemanha enviará uma equipe de reconhecimento da Bundeswehr composta por 13 militares; e Suécia e Noruega contribuirão com oficiais e unidades especializadas em operações em climas extremos.
O presidente Donald Trump reagiu de modo contundente às movimentações europeias, afirmando que Nuuk “serve aos EUA” e que para defendê‑la “não bastarão trenós puxados por cães“. A declaração reaviva lembranças da oferta anterior — então tratada como anedota diplomática — de compra da ilha pelos Estados Unidos, e transforma o episódio numa questão estratégica, longe das piadas de auditório.
Em paralelo às manobras militares, permanece a componente econômica: reservatórios de petróleo, gás e depósitos de elementos de terras‑raras tornaram a Groenlândia um alvo de interesse geoeconômico. Empresas como a italiana Eni declararam que não retomarão operações na ilha, citando compromissos com as comunidades locais, mesmo se Washington intensificar esforços para explorar recursos locais.
Do ponto de vista diplomático, a posição de Dinamarca e de Nuuk é clara: qualquer hipótese de anexação é uma “linha vermelha” inaceitável. A mobilização de forças europeias, aparentemente coordenada com Copenhague, responde tanto a um pedido de proteção — no sentido de reafirmar a soberania dinamarquesa sobre o território — quanto à necessidade de mapear e vigiar uma área cujo valor estratégico cresce com o degelo e a abertura de rotas marítimas do Ártico.
Em termos de análise estratégica, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro do poder: a Groenlândia, antes periférica, reaparece como nó crítico na cartografia geopolítica. A conjunção entre interesses militares e econômicos desenha um redesenho de fronteiras invisíveis e exige prudência diplomática para evitar escaladas desnecessárias. As potências europeias, ao projetarem forças sob o guarda‑chuva da cooperação com a Dinamarca, buscam tanto dissuadir ações unilaterais quanto preservar os alicerces frágeis da ordem internacional no Ártico.
Resta saber se os próximos capítulos serão escritos em termos de diálogo institucional ou de demonstração de força. Por ora, a situação ilustra como a disputa por recursos e posição estratégica pode transformar um território remoto num ponto focal da grande estratégia global.






















