Em um movimento que reconfigura, ainda que modestamente, a tectônica de poder entre Roma e Caracas, foi libertado Luigi Gasperin, empresário italiano de 77 anos até então retido na Venezuela. Segundo nota oficial da Farnesina, Gasperin — portador apenas de passaporte italiano — encontra‑se “provado, mas em condições estáveis” e manifestou o desejo de retornar à cidade de Maturín, no estado de Monagas, onde mantém sua empresa.
O nome de Gasperin soma‑se aos de outros conterrâneos recentes libertados por autoridades venezuelanas, como o cooperante Alberto Trentini e o empresário torinês Mario Burlò. A detenção de Gasperin remonta a agosto do ano anterior, quando foi preso em Maturín durante uma operação que alegou a posse, transporte e uso de material explosivo relacionado às atividades de sua empresa, a Técnica Petrolera WLP.
Empresa do setor de Oilfield, a Técnica Petrolera WLP atua principalmente em perfurações de poços — atividade que, por sua natureza, envolve o emprego controlado de explosivos. Entre 2000 e 2024, a companhia, da qual Gasperin é sócio majoritário e presidente, obteve cerca de sessenta contratos com a PDVSA e suas subsidiárias, estabelecimento que traduz a enraizada presença do empresário na indústria petrolífera local.
Importante distinguir os contornos da detenção: Gasperin esteve recolhido desde o verão anterior numa estrutura de detenção que não se configurava, tecnicamente, como um cárcere comum. Assim, seu nome não constava nas listas de detidos políticos, dado o caráter burocrático e as circunstâncias do encarceramento.
Reportagens de investigação, notadamente da Armando.info, levantaram a hipótese de que o empresário teria sido vítima de um “complô falso”, supostamente arquitetado por atores do alto escalão do governo — entre eles, o ministro Diosdado Cabello — uma tese nunca formalmente comprovada pelas instâncias judiciais de Caracas. Para a família, essa narrativa foi e continua sendo inconsistente com a biografia do empresário: sua filha, Claudia Gasperin, chegou a publicar (e posteriormente remover) uma mensagem nas redes sociais descrevendo o pai como “um homem honesto, inocente, privado da liberdade e do trabalho de uma vida”.
Do ponto de vista diplomático, a libertação reveste‑se de simbolismo: antes do anúncio, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, declarou que ainda haveria 42 italo‑venezuelanos detidos, e que os cidadãos portadores apenas do passaporte italiano já haviam sido libertados. Dos detidos, 24 seriam considerados políticos, e o governo italiano, segundo Tajani, trabalha para obter novas liberações. Este é um movimento cuidadoso no tabuleiro diplomático, que exige combinações entre pressão pública, canais discretos e a manutenção de linhas de diálogo com Caracas.
Do ponto de vista do investimento e das relações contratuais, o caso de Gasperin espelha um problema mais amplo: empresas estrangeiras com contratos de longa data na Venezuela operam em alicerces que podem revelar-se frágeis quando o cenário político se altera. A apreensão do material explosivo foi usada, oficialmente, como justificativa para o ato restritivo — uma peça no xadrez das acusações que, para observadores externos e para as defesas, não se coadunou com a atividade empresarial declarada.
Para além da libertação individual, permanece o desafio estrutural: restabelecer segurança jurídica para operadores estrangeiros e reduzir o custo político e reputacional de operar em zonas onde acusações de conspiração podem emergir como respostas a crises internas. Em linguagem de estrategista, a soltura de Gasperin é um movimento tático que não resolve os problemas estratégicos do relacionamento bilateral, mas descansa uma das peças num tabuleiro ainda em rearranjo.





















