Por Chiara Lombardi — Em uma temporada que lembra um roteiro bem recalibrado para a plateia natalina, Checco Zalone voltou a fazer história nas bilheterias italianas com Buen Camino. Na contagem de 14 de janeiro de 2026, o filme atingiu €66.109.747, ultrapassando oficialmente os €65.365.676 de Quo Vado? (2016). A cena, porém, pede uma leitura em dois planos: o sucesso em faturamento e a distância persistente no número real de espectadores.
Numericamente, a trajetória do novo longa zaloniano aponta direto para um objetivo claro — o único recorde possível para um filme italiano em termos de receita: os €68.675.722 que Avatar, de James Cameron, arrecadou na Itália em 2009. À primeira vista, a meta parece ao alcance. Mas o enquadramento se altera quando avaliamos o contexto.
Logo após o lançamento, Buen Camino ocupava quase o dobro de salas do que hoje: atualmente está em cerca de 600 salas, ante o pico inicial. Além disso, o êxito do período não pode ser dissociado do calendário: o filme surfou um robusto período de feriados quase ininterruptos, do Christmas run (25 de dezembro de 2025) até 6 de janeiro de 2026 — um fenômeno que atuou como vento favorável para as bilheterias e que agora começa a rarear.
Há um pacto tácito na distribuição que vale lembrar: até a era de Tolo Tolo (2019), uma prática não escrita evitava a sobreposição dos grandes títulos por cerca de um mês, otimizando janelas para cada grande lançamento. Isso também alimentou, indiretamente, o caminho de Quo Vado? anos atrás e colaborou para que Buen Camino vencesse em arrecadação. O resultado é incontestável: hoje é, de fato, o filme italiano que mais faturou na história do mercado interno.
Mas se o roteiro exige fidelidade aos números, a cena muda quando contamos as cabeças nas cadeiras: segundo dados da SIAE, o filme de 2016, Quo Vado?, levou às salas 9.964.606 espectadores. Já Buen Camino, quase uma década depois, está em 8.214.577. Ou seja: apesar de maior receita, Buen Camino tem menos público.
O motivo não é mistério técnico, mas econômico e estrutural: o preço do ingresso subiu, sobretudo nas sessões noturnas e em multiplexes que oferecem poltronas “especiais”. Um exemplo citado de referência em Milão mostra sessões noturnas no Anteo City Life por cerca de €15. Assim, cada bilhete atual rende mais receita do que há anos — o que infla a bilheteria sem aumentar proporcionalmente o número de espectadores.
Por isso, a narrativa do “filme dos recordes” precisa ser subtendida: sim, Buen Camino é o filme italiano que mais arrecadou em termos nominais; não, ele não é o campeão quando medimos a audiência em número de pessoas. Na classificação histórica por espectadores, ele sequer figura no top 50 — está além da 70ª posição.
Outros títulos italianos, muitos clássicos do século XX, colheram audiências muito maiores: Per grazia ricevuta, Il medico della mutua, Rocco e i suoi fratelli, La vita è bella (com 10.245.000 espectadores), Novecento, entre outros, demonstram que o cinema também é um espelho do tempo em que se exibe: havia uma densidade de público e um padrão de consumo cultural diferente — o roteiro oculto da sociedade mudou.
Concluo como observadora: o êxito de Checco Zalone é inegável e simbólico, mas é também sintoma das transformações da indústria — do preço dos ingressos à fragmentação do consumo audiovisual. A metáfora é cinematográfica e sociológica: temos um blockbuster que brilha em receita, mas o reflexo no espelho do público nos lembra que o verdadeiro recorde histórico ainda tem o rosto azul de Avatar, sustentado por um outro tipo de audiência e por um momento cultural distinto.





















