Por Marco Severini — La Via Italia
O cardeal Pizzaballa, patriarca dos Latinos e figura-chave da presença cristã em Jerusalém, qualificou a situação em Gaza como um “cenário de total devastação” em entrevista ao Vatican News. A três meses do início do cessar-fogo, a população da Faixa mantém-se presa numa precariedade crônica, onde a sobrevivência diária é uma sequência de pequenos e dolorosos colapsos.
Em termos práticos, observa o cardeal, a dinâmica mudou: “Não há mais uma guerra em grande escala, mas persistem bombardeios cirúrgicos e operações pontuais.” Mesmo com uma disponibilidade de alimentos que, em parte, melhorou em relação aos piores dias do conflito, faltam insumos médicos essenciais. “Há mais comida do que antes, mas faltam medicamentos. Morre-se de frio e morre-se por ausência de assistência médica — não há antibióticos, não há medicamentos básicos”, afirmou Pizzaballa, sublinhando a fragilidade dos alicerces humanitários.
O alerta do cardeal ecoa o último relatório da Unicef, que aponta que, desde o início da trégua, foram mortos mais de cem crianças palestinas — uma média horrenda de cerca de uma criança por dia —, muitas vezes por incidentes relacionados a ataques remanescentes ou à impossibilidade de receber cuidados médicos adequados.
Além dos efeitos diretos dos ataques, a situação é agravada por restrições impostas por Israel a insumos críticos: combustível, suprimentos médicos, gás de cozinha e componentes para as redes de água e esgoto continuam parcialmente bloqueados. Esta combinação de limitações logísticas transforma a reconstrução e o cotidiano em exercícios de improvisação permanente.
Na esfera política, desenha-se um novo movimento no tabuleiro internacional: está para ser anunciado o chamado “board of peace”, um organismo internacional que, sob a liderança do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria a tarefa de supervisionar um executivo de tecnocratas destinado a governar Gaza. Para o cardeal Pizzaballa, essa iniciativa levanta questões essenciais. “Será muito difícil entender o que poderá fazer esse board, como funcionará e como as coisas realmente mudarão”, disse ele, apontando para a incerteza institucional e para os riscos de desalinhamento entre autoridade internacional e realidades locais.
Do ponto de vista estratégico, a proposta do board of peace é um movimento que busca redesenhar uma zona de governança — um lance no grande tabuleiro geopolítico. Mas, como em qualquer jogada ambiciosa, sua eficácia dependerá de duas condições: a capacidade de garantir acesso contínuo e irrestrito a bens humanitários essenciais, e a habilidade política de articular legitimidade local com mecânicas de supervisão externa. Sem isso, corre-se o risco de erigir estruturas técnicas sobre alicerces frágeis.
O relato do cardeal Pizzaballa é, portanto, tanto um apelo humanitário quanto um diagnóstico geoestratégico. Em termos humanitários, impõe-se um aumento imediato e sem entraves de medicamentos, combustível e insumos sanitários. Em termos políticos, exige-se transparência e clareza operacional sobre o papel do board e sobre como as potências internacionais — e Israel — coordenarão a transição de governança sem agravar as vulnerabilidades da população.
Enquanto isso, a população permanece entre os escombros da diplomacia e da infraestrutura: um teatro onde cada movimento no tabuleiro pode significar a diferença entre vida e morte.


















