Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, silenciosamente, linhas de influência no extremo norte do Atlântico, a Dinamarca anunciou o reforço de sua presença militar na Groenlândia, respondendo a críticas públicas vindas dos Estados Unidos e a comentários do presidente Donald Trump sobre a capacidade defensiva da ilha. A declaração foi feita pelo ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, e marca um reforço estratégico dentro da tática coletiva da OTAN no Ártico.
Segundo Poulsen, em declaração à AFP, “Continuaremos a reforçar a nossa presença militar na Groenlândia, com um foco acrescido dentro da OTAN em mais exercícios e numa maior presença da Aliança no Ártico”. O ministro acrescentou que Copenhague mantém “um diálogo contínuo com os seus aliados” sobre as novas e maiores atividades previstas para 2026. Essas palavras revelam um movimento deliberado de fortificação de alicerces na periferia estratégica europeia.
Em paralelo às declarações oficiais, circulam rumores — ainda por confirmar — de que o Reino Unido estaria avaliando o envio de tropas à Groenlândia no âmbito de uma missão da OTAN apelidada nos bastidores de “Grande Norte”, com participação de aliados europeus. A notícia coloca Londres num dilema: entre responder a pressões externas e gerir limitações estruturais das suas forças armadas.
Do ponto de vista diplomático, a França também reforça sua presença: o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, anunciou a abertura de um consulado na ilha em 6 de fevereiro, uma decisão já delineada desde a visita do presidente Emmanuel Macron no verão passado. Barrot descreveu a medida como “um sinal político” dirigido aos Estados Unidos, reiterando que a Groenlândia “não está à venda” e que o território autónomo optou por permanecer alinhado com a Dinamarca, a OTAN e a União Europeia.
Enquanto as capitais europeias realinham posturas, a reação local sublinha uma lógica de soberania comunitária. Em entrevista ao Giornale d’Italia, o padre Tomaž Majcen, o único pároco católico de Nuuk, afirmou que “esta terra pertence a quem aqui vive; não trocaríamos uma forma de dependência por outra” — uma frase que resume a resistência social a operações de grande vulto impostas do exterior.
No epicentro do incidente está a abordagem pública do presidente Trump, que chegou a classificar a capacidade defensiva da ilha em termos depreciativos e declarou que uma eventual “anexação” seria “psicologicamente importante”. Em privado, Trump afirmou não conhecer o primeiro-ministro groenlandês Jens-Frederik Nielsen, apesar das reiteradas manifestações oficiais de Nuuk, junto de Copenhague, em favor da manutenção do estatuto atual.
Do ponto de vista estratégico, tratam-se de movimentos coordenados que evocam uma série de jogadas num tabuleiro de xadrez geopolítico: a Dinamarca solidifica posições; a OTAN amplia exercícios e presença; a França ergue um ponto diplomático-científico; atores como o Reino Unido ponderam intervenções. Em conjunto, essas iniciativas constituem um redesenho de fronteiras invisíveis no Ártico, onde a tática e a simbologia se entrelaçam.
Para analistas prudentes, a lição é clara: a Groenlândia é hoje mais do que uma peça no xadrez do Ártico — é um alicerce estratégico cuja posse simbólica e real convoca interesses múltiplos. A opção das autoridades groenlandesas por permanecer integradas ao Reino da Dinamarca e às estruturas transatlânticas é, nesse contexto, uma forma de equilibrar pressões, proteger recursos e preservar autonomia.




















