O confronto entre a Casa Branca e a Federal Reserve atingiu um nível raramente visto, transformando-se num caso com fortes repercussões diplomáticas e financeiras. O presidente Donald Trump, que nomeou o atual presidente do banco central, Jerome Powell, voltou a atacá-lo publicamente, chegando a qualificá-lo de “um idiota” nas últimas horas.
O episódio ocorre justamente no dia em que Powell recebeu uma declaração pública de apoio de vários governadores das principais instituições monetárias globais, entre os quais Christine Lagarde (Banco Central Europeu) e Andrew Bailey (Bank of England). A nota conjunta reafirmou a “plena solidariedade” a Powell e ressaltou que a independência dos bancos centrais é uma pedra angular da estabilidade global e do Estado de direito.
Também o chanceler alemão, Friedrich Merz, interveio para advertir que a autonomia monetária constitui uma garantia de estabilidade que não pode ser relativizada. Trata-se, nas palavras dos signatários, de um alicerce essencial para a confiança dos mercados e para a previsibilidade das políticas econômicas — elementos que sustentam a ordem financeira internacional.
O atrito escalou depois da abertura de uma investigação penal pelo Departamento de Justiça dos EUA sobre custos ligados à reforma da sede da Fed. Powell denunciou que a iniciativa soa como um “pretexto” político destinado a minar a autonomia da política monetária. Em resposta, desde Detroit, Trump intensificou os ataques, acusando o presidente do banco central de ser “incompetente ou desonesto” por exceder o orçamento das obras e pedindo que deixe o cargo antes do término do mandato, previsto para maio.
O episódio não gera inquietação apenas nas esferas institucionais: líderes do setor privado alertaram sobre os riscos de se fragilizar a credibilidade do banco central. Executivos de grandes bancos americanos, incluindo o CEO do BNY, Robin Vince, avisaram que essa erosão de confiança pode sacudir o mercado de títulos, elevando os juros hipotecários e o custo de vida, justamente pela perda de fé dos investidores.
Os mercados já reagiram com sinais de instabilidade: houve enfraquecimento do dólar e volatilidade nos títulos do Tesouro. Ex-presidentes da Fed e parlamentares de ambos os partidos definiram a iniciativa do presidente como um ataque frontal à credibilidade econômica do Estado, suscitando perguntas profundas sobre a resistência das instituições democráticas americanas diante de pressões políticas.
Enquanto a situação se desenrola, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: um choque entre poderes formais e as regras tácitas que mantêm a confiança financeira. Esta disputa expõe a tectônica de poder que sustenta a governança global — e testa os alicerces frágeis da diplomacia institucional num momento em que a previsibilidade das políticas monetárias é mais necessária que nunca.






















