O cofundador da Microsoft, Bill Gates, publicou em seu site uma reflexão extensa de início de ano em que formula três perguntas centrais que, na sua visão, determinarão a trajetória do progresso nas próximas décadas. No ensaio em Gates Notes, Gates identifica como fundamentais as decisões sobre desigualdades, prioridades de inovação e os riscos associados à inteligência artificial.
As duas primeiras questões tocam a distribuição de riqueza e oportunidade: se um mundo mais próspero aumentará sua generosidade com os mais necessitados e se serão priorizadas inovações em larga escala que promovam a igualdade. A terceira pergunta aborda diretamente a tecnologia que reestrutura o sistema nervoso das nossas cidades e economias: “Conseguiremos minimizar as consequências negativas causadas pela IA, à medida que ela acelera?”
Gates recorda a lição da pandemia de Covid: “Se tivéssemos nos preparado adequadamente para a pandemia de Covid, a quantidade de sofrimento humano teria sido drasticamente menor”. A partir dessa observação, ele traça um paralelo com um risco emergente e, possivelmente, mais agudo: a possibilidade de um grupo não governamental utilizar ferramentas de inteligência artificial de código aberto para projetar uma arma bioterrorística. Essa preocupação alinha-se com o relatório de um grupo de especialistas, coordenado pela Nuclear Threat Initiative e pela Munich Security Conference, que alertou sobre o uso de ferramentas biológicas baseadas em IA — já existentes ou em desenvolvimento — para criar agentes patogênicos com potencial pandêmico.
Como analista de infraestrutura digital, vejo essa advertência como um chamado para reforçar os alicerces digitais e biológicos simultaneamente: a combinação de algoritmos poderosos e dados abertos reduz o tempo e aumenta a precisão no projeto de agentes biológicos, transformando um risco teórico em um problema de engenharia de risco real. É imperativo, portanto, pensar em camadas de segurança, padrões de acesso e mecanismos de defesa que integrem vigilância, controlo de versões de modelos e auditoria de uso.
Gates também destaca outro eixo de impacto da IA: o mercado de trabalho. Para ele, a tecnologia substituirá seres humanos em grande parte das tarefas rotineiras, e 2026 deve ser usado como um ano de adaptação a esse cenário. Entre as alternativas propostas, menciona-se a redução da jornada semanal e até a decisão consciente de não empregar IA em certos domínios sensíveis. Essas escolhas são menos questões de hábito que de arquitetura social: como redesenhar políticas públicas, educação e regulação para que o fluxo de dados e recursos se traduza em bem-estar e não em concentração de risco.
Em síntese, o texto de Bill Gates é um apelo pragmático: precisamos encarar a inteligência artificial como infraestrutura — poderosa, eficiente e com falhas potenciais — e projetar, desde já, controles técnicos e institucionais que reduzam riscos de abuso e ampliem os benefícios. O desafio é técnico e político ao mesmo tempo: fortalecer defensas biológicas, regular o acesso a ferramentas avançadas e preparar a força de trabalho para a transição. O ano de 2026, segundo Gates, deve ser aproveitado para essas decisões estruturais.






















