A Corte Constitucional da Itália deve decidir, no dia 11 de março, se o chamado Decreto Tajani, já convertido em lei, está de acordo com a Constituição italiana. A norma é considerada a mais restritiva já aplicada ao reconhecimento da cidadania italiana por descendência (iure sanguinis) e tem potencial para mudar profundamente o cenário de milhares de processos em andamento no mundo inteiro.
A decisão é aguardada com atenção não apenas por juristas, mas também por famílias ítalo-descendentes que já iniciaram ou planejavam iniciar o reconhecimento da cidadania italiana, seja pela via administrativa, seja pela via judicial.
Por que o Decreto Tajani é tão controverso?
O ponto central da controvérsia está no alcance das restrições impostas pela nova lei e, sobretudo, na aplicação retroativa dessas regras. Na prática, o decreto limita o acesso ao reconhecimento da cidadania, inclusive afetando pessoas que já estavam em filas consulares ou com processos em curso antes da entrada em vigor da norma.
Esse aspecto levanta uma questão sensível no Direito: pode uma nova lei restringir ou eliminar um direito que já estava sendo exercido sob regras anteriores? É exatamente essa pergunta que a Corte Constitucional deverá responder.
O que está em jogo no julgamento
O julgamento analisará se o Decreto Tajani viola princípios constitucionais fundamentais, especialmente aqueles ligados à segurança jurídica e à proteção de direitos já consolidados.
A ação conta com uma defesa técnica composta por juristas de renome, entre eles Benedetta Ballatore, Giovanni Bonato, Giovanni Caridi, Alfonso Celotto, Diego Corapi, Riccardo De Simone e Monica Lis Restanio. O grupo sustenta que:
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Leis não podem ter efeitos retroativos quando prejudicam direitos adquiridos;
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Normas administrativas ou leis ordinárias não podem restringir direitos civis já reconhecidos por leis superiores;
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O direito à cidadania por descendência, quando preenchidos os requisitos legais, não pode ser suprimido por mudanças posteriores na legislação.
A tese central da defesa é que o Decreto Tajani não possui força jurídica suficiente para eliminar direitos já consolidados, especialmente em relação a processos iniciados antes de sua vigência.
A posição do governo italiano
Do outro lado, o governo italiano defende a constitucionalidade da norma. Segundo o argumento oficial, as restrições seriam necessárias para organizar o crescente volume de pedidos de cidadania, que vem aumentando de forma significativa nos últimos anos.
O governo sustenta ainda que é legítimo exigir um vínculo efetivo entre o requerente e a Itália, evitando que a cidadania seja reconhecida apenas como um título formal, sem conexão real com o país.
Os argumentos da defesa constitucional
A defesa afirma que a Lei Tajani viola diretamente os artigos 2, 3 e 117 da Constituição Italiana, que tratam, entre outros pontos, da proteção dos direitos fundamentais, da igualdade perante a lei e do respeito aos compromissos internacionais assumidos pelo Estado italiano.
Além disso, os advogados apontam conflito com tratados internacionais, como:
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A Declaração Universal dos Direitos Humanos;
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O Tratado da União Europeia, que protege o princípio da não discriminação e da segurança jurídica.
Segundo a argumentação, a lei cria uma perda automática e retroativa de um direito adquirido, algo incompatível com o ordenamento constitucional italiano.
Essa insegurança jurídica levou um juiz de Turim a suspender um processo específico de reconhecimento de cidadania e remeter a questão diretamente à Corte Constitucional, reconhecendo a relevância e a complexidade do tema.
A audiência de 11 de março e o fator Mantova
A audiência está oficialmente marcada para o dia 11 de março, mas sua realização depende de um detalhe técnico importante: a publicação, na Gazzetta Ufficiale, da sentença de Mantova, relacionada ao reconhecimento da cidadania de menores nascidos antes da entrada em vigor da nova lei.
Segundo informações divulgadas, essa publicação é esperada nos próximos dias, mas depende exclusivamente da Corte Constitucional. Caso ocorra dentro do prazo, a audiência será mantida conforme o calendário previsto.
Por que essa decisão é tão relevante?
O julgamento pode:
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Definir se o Decreto Tajani continuará sendo aplicado;
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Determinar se seus efeitos retroativos são válidos ou não;
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Influenciar diretamente milhares de processos administrativos e judiciais em andamento;
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Estabelecer um precedente crucial sobre os limites do poder legislativo em matéria de cidadania.
Mais do que uma discussão técnica, trata-se de uma decisão que envolve direitos fundamentais, identidade, pertencimento e segurança jurídica, com impacto direto sobre gerações de descendentes de italianos ao redor do mundo.
A resposta da Corte Constitucional, portanto, não afetará apenas processos individuais, mas poderá redefinir o futuro do reconhecimento da cidadania italiana por descendência.






















