Por Marco Severini — La Via Italia
Após vinte e cinco anos de negociações, múltiplas versões descartadas e protestos agrícolas em diversas capitais europeias, o Parlamento da União Europeia aprovou, em 10 de janeiro de 2026, o **acordo UE‑Mercosur**. O voto foi apertado: França, Polônia, Áustria, Hungria e Irlanda disseram não; a Bélgica absteve‑se. Foi o **voto italiano**, após semanas de hesitações diplomáticas, que fez pender a balança a favor do tratado.
O texto aprovado cria, na prática, a maior área de livre‑comércio do planeta, abrangendo cerca de 780 milhões de consumidores. No entanto, sob o verniz dos comunicados triunfais — muito na linha da retórica otimista das lideranças europeias — emergem contradições estruturais que exigem leitura estratégica e fria: trata‑se de um acordo nitidamente assimétrico, que privilegia setores industriais europeus, sobretudo alemães, enquanto expõe a agricultura europeia a pressões concorrenciais severas e põe em risco compromissos ambientais.
De acordo com estimativas da Comissão Europeia, mais de 90% das tarifas entre as duas regiões serão eliminadas ao longo de quinze anos, com um ganho agregado modesto para o PIB europeu — cerca de 0,05% até 2040 — e um impacto econômico total estimado em torno de 90 bilhões de dólares. Mas a distribuição desses ganhos é desigual: exportações de automóveis, máquinas, equipamentos farmacêuticos e químicos para países que hoje aplicam tarifas de até 35% sobre veículos e até 18% sobre componentes automotivos tornam o bloco Mercosur especialmente atraente para a indústria automobilística da Alemanha. Nomes como Volkswagen, BMW e Mercedes‑Benz figuram, neste tabuleiro, como os beneficiários mais nítidos.
A indústria química alemã, que em 2024 exportou 4,3 bilhões de euros ao Mercosur, também respira aliviada. As associações industriais alemãs saudaram o acordo; as confederações empresariais italianas também reconheceram oportunidades de mercado, com o presidente da Confindustria italiana, Emanuele Orsini, afirmando a necessidade de abrir novos mercados.
Em contrapartida, a Europa passará a importar volumes substanciais de carne bovina, aves, açúcar, soja, mel e biocombustíveis do Sul americano — produtos oferecidos a preços inferiores graças a custos de produção diferentes e a padrões regulatórios menos rigorosos. Ai reside a clivagem decisiva: enquanto a União Europeia se compromete com o **Green Deal** e metas de emissões líquidas zero até 2050, muitos países do Mercosur não adotam equivalentes desses padrões. Produtos alimentares provenientes de práticas que ainda admitem hormônios proibidos na UE ou o uso de pesticidas banidos no bloco europeu poderão entrar no mercado comunitário, pressionando produtores locais e enfraquecendo os alicerces das políticas ambientais europeias.
Outra consequência geopolítica e ecológica é a potencial aceleração do **desmatamento na Amazônia**. O aumento da demanda por soja e carne pode reforçar práticas de expansão agrícola em áreas sensíveis, num momento em que a comunidade internacional exige compromissos claros de proteção florestal. A desconexão entre as metas climáticas europeias e os incentivos econômicos gerados por este acordo revela uma tensão estrutural: um redimensionamento de fronteiras comerciais que não coincide com a tectônica de objetivos ambientais.
Do ponto de vista estratégico, trata‑se de um movimento decisivo no tabuleiro que redesenha e realoca vantagens comparativas. A vitória, por assim dizer, é de natureza industrial e seletiva. A **Alemanha** emerge como a beneficiária mais clara, enquanto o setor agrícola europeu — com suas normas sanitárias e ambientais mais rigorosas — se vê em posição de fragilidade. A pergunta que permanece é política: que contrapartidas e salvaguardas reais a UE ofertará aos agricultores e aos compromissos climáticos para evitar que os ganhos mercantis se convertam em perdas de soberania ambiental e social?
Como analista de política internacional, vejo esse desfecho não como um golpe súbito, mas como um movimento calculado — uma série de trocas e concessões que foram sendo negociadas ao longo de décadas. Resta agora aos governos, parlamentos nacionais e à sociedade civil europeia transformar preocupações legítimas em mecanismos concretos de proteção: cláusulas de sustentabilidade acionáveis, monitoramento rigoroso de origem e certificação, e instrumentos de compensação para produtores locais. Sem isso, os alicerces poderão se tornar frágeis, e o redesenho das rotas comerciais fará deslocar, invisivelmente, o equilíbrio entre poder econômico e responsabilidade ambiental.
Marco Severini
La Via Italia — voz em geopolítica e estratégia internacional






















