Groenlândia voltou a ocupar as atenções do mundo por motivos geoestratégicos. Nas últimas semanas, o ex-presidente e líder influente Donald Trump reacendeu o debate sobre a possibilidade de os Estados Unidos tornarem-se senhores da ilha, alegando que sua aquisição seria vital para a “segurança nacional” americana e que, de um modo ou de outro, a Groenlândia seria dos EUA.
Reações imediatas vieram de Nuuk, do Governo da Dinamarca e de outras capitais europeias: a ilha — pertencente ao Reino da Dinamarca — não está à venda, e qualquer tentativa forçada de anexação constituiria, na prática, uma agressão contra um Estado ligado por laços de Aliança Atlântica.
Para compreender a percepção local sobre esse movimento geopolítico, Il Giornale d’Italia conversou com Padre Tomaž Majcen, frade menor conventual e pároco da igreja de Cristo Rei, a única paróquia latina em Nuuk e na Groenlândia. Através de sua experiência pastoral, das confidências de fiéis e da convivência diária com a comunidade, o padre traça um quadro discreto, porém firme, sobre o sentimento groenlandês.
Majcen descreve uma comunidade pequena, unida e majoritariamente composta por imigrantes — das Filipinas, de várias partes da Europa e de outros contextos — que preserva a fé em inglês e, por vezes, em dinamarquês. O sacerdócio, afirma ele, tem sido um serviço íntimo: conhecer rostos e histórias confere densidade humana ao ministério numa terra de grandes espaços e poucas pessoas.
Sobre o fóco do debate internacional, Padre Majcen é categórico: “**Esta terra pertence a quem aqui vive**”. Em termos diplomáticos e humanos, a frase sintetiza um princípio de autodeterminação que, segundo ele, prevalece entre os groenlandeses: não há disposição para trocar uma forma de dependência por outra. A prioridade, no dizer do pároco, é preservar os alicerces sociais e a identidade local — fatores que poderiam ser corroídos por interesses externos quando motivados apenas por vantagens estratégicas ou econômicas.
Do ponto de vista prático, a Groenlândia possui um posicionamento estratégico incontestável — proximidade com rotas do Ártico, potencial de recursos minerais e valor militar para potências que reavaliam o Atlântico Norte e o corredor polar. Isso transforma a ilha num tabuleiro de xadrez onde movimentos públicos e discretos se cruzam: acordos, pressões e ofertas econômicas aparecem como tentativas de influenciar a tectônica de poder regional.
Nuuk e os moradores explicam ao padre uma apreensão clara: a independência desejada por muitos não nasce apenas de um apelo identitário, mas também de um receio racional de submissão a interesses externos, sejam eles de um aliado tradicional, como a Dinamarca, ou de atores emergentes no cenário global, como a China e a Rússia. Nesse contexto, qualquer proposta que ignore a voz local ou que proponha soluções unilaterais será, na prática, recusada.
Como analista atento à estabilidade das relações de poder, observo que a situação exige prudência e arquitetura diplomática: movimentos bruscos no tabuleiro do Ártico podem redesenhar fronteiras invisíveis e gerar rupturas indesejadas entre aliados. A Groenlândia não é apenas um ativo geoestratégico; é uma comunidade viva, com uma história e um projeto de futuro que merecem ser escutados e respeitados.
Em suma, a mensagem que vem de Nuuk, através da voz serena e firme de Padre Tomaž Majcen, é clara — e serve de baliza para qualquer estratégia externa: a soberania de facto está nas mãos de quem ocupa e constrói a terra, e essa soberania não se negocia em câmaras distantes nem se troca por contratos que substituam uma dependência por outra.






















