Por Aurora Bellini — Em um experimento que ilumina novas vias de entendimento entre humanos e seus companheiros caninos, pesquisadores do Departamento de Etologia da Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste, com participação da pesquisadora italiana Claudia Fugazza, demonstraram que alguns cães — os chamados Gifted Word Learner (GWL) — conseguem aprender novas palavras mesmo quando apenas escutam conversas das quais não participam diretamente. O estudo foi publicado recentemente na revista Science.
O ensaio envolveu dez cães identificados previamente pelo talento em associar nomes a objetos. A experiência foi dividida em duas fases de oito minutos cada. Na primeira etapa, os proprietários interagiram diretamente com os animais, exibindo e nomeando repetidas vezes dois novos brinquedos. Na segunda fase, os cães permaneceram passivos enquanto os donos conversavam entre si com um familiar sobre outros dois brinquedos — frases do tipo “este é o nome do brinquedo” e “você quer o nome do brinquedo?” foram usadas para simular diálogos naturais.
Após essas exposições, os testes de verificação pediram aos cães que buscassem os objetos em outra sala. Os resultados foram notáveis: na primeira fase, os índices de acerto atingiram 80% (16 recuperações corretas em 20 tentativas). Na segunda fase, em que os cães apenas ouviram as conversas, o desempenho foi ainda mais surpreendente — 100% de acerto (20 em 20).
Para aprofundar a investigação, os pesquisadores introduziram uma dificuldade adicional: os donos nomeavam outros brinquedos apenas depois de guardá-los em uma cesta, de modo que os animais não podiam ver o objeto no momento em que a palavra era pronunciada. Mesmo com essa separação temporal entre palavra e objeto, a maioria dos cães GWL mostrou-se capaz de aprender os nomes corretos.
Segundo explicações fornecidas por Fugazza ao portal da universidade, esses achados sugerem que esses cães utilizam de forma flexível vários mecanismos cognitivos para adquirir novas denominações — não apenas a associação visual direta, mas também a aprendizagem passiva por escuta contextual e memória associativa.
Este trabalho abre um corredor iluminado para repensarmos a profundidade da inteligência canina. Assim como bebês humanos entre um ano e meio e dois anos, alguns cães parecem captar significados a partir do contexto linguístico, revelando que a compreensão de palavras pode nascer tanto do contato direto quanto da observação discreta. É uma luz que nos convida a semear novas formas de convívio e treinamento, valorizando habilidades individuais e promovendo um laço mais ético e sensível entre espécies.
















