Unicredit iniciou 2026 com uma manobra estratégica de impacto: a instituição triplicou sua participação na Alpha Bank, elevando-a de 9% para 29,8% por meio da conversão de instrumentos derivativos em ações. Há ainda outros instrumentos que somam 2,27%, o que aproxima a banca italiana da faixa crítica de 33,33% prevista pela legislação grega para disparar uma OPA obrigatória. Apesar da proximidade dessa barreira legal, uma oferta pública de aquisição permanece improvável no curto prazo, em função da valorização significativa das ações da Alpha Bank no último ano, o que tornaria um takeover dispendioso.
Esta operação confirma a estratégia de expansão internacional de Unicredit, que vem calibrando seu motor de crescimento fora da Itália nos últimos meses. A aliança reforça também a posição do grupo na Romênia, onde as controladas de ambos os bancos foram integradas no ano anterior, embora o foco principal do CEO Andrea Orcel seja a Europa Central, com a Commerzbank como alvo prioritário.
Hoje, Unicredit detém cerca de 26% do capital da Commerzbank, mais aproximadamente 3% via instrumentos derivativos, que representariam uma plusvalia mínima de 200 milhões de euros caso fossem liquidados. Ainda assim, Orcel deixou claro que a venda dessa participação não é a prioridade: a intenção é buscar uma integração que preserve o papel do governo alemão como stakeholder relevante. O cenário mais plausível, caso haja acordo político-financeiro, seria uma OPA seguida de fusão operacional — um desenho que o mercado avalia positivamente pelas sinergias potenciais, sobretudo quando se compara o gap de eficiência entre as duas instituições (cost-income ratio de 59% na Commerzbank contra 46% na Unicredit).
Como estrategista, interpreto essa movimentação como uma calibragem fina do motor bancário europeu: o objetivo é construir campeões continentais capazes de sustentar custos fixos elevados e transformar escala em rentabilidade. A combinação entre Unicredit e Commerzbank teria impacto imediato sobre margens e eficiência, acelerando a reconfiguração do setor bancário transfronteiriço.
No mercado doméstico italiano, contudo, a ambição internacional de Unicredit não se traduz em operações iminentes. Rumores sobre possíveis movimentos na Piazza Gae Aulenti foram refutados por Orcel, que negou interesse em aquisições locais relevantes — operações em bancos com estruturas de controle consolidadas, como Banco BPM, são consideradas improváveis dado o predomínio de acionistas fortes como Unipol e a Fondazione Banco di Sardegna.
Mais sedutor, do ponto de vista estratégico, é o rumor sobre uma eventual entrada no capital do Montepaschi di Siena (MPS). Fontes próximos à direção indicam que Orcel estaria avaliando a oportunidade, que exigiria uma análise rigorosa do balanço, das provisões e do potencial de sinergia estrutural. Para uma instituição cujo projeto é pilotar um crescimento de alta performance, qualquer movimento sobre a MPS demandaria precisão — quase uma engenharia financeira — para transformar fraquezas em pontos de alavancagem sustentável.
Em suma, a jogada sobre a Alpha Bank reforça a narrativa de expansão externa de Unicredit e indica que o banco segue calibrando sua estratégia europeia com foco em escala, eficiência e consolidação. O tabuleiro mais amplo inclui a possível integração com a Commerzbank e, no plano doméstico, a avaliação criteriosa de oportunidades como a do Montepaschi. Para investidores e conselhos de administração, trata-se de observar a aceleração das tendências com olhos de engenharia: avaliar torque, consumo e durabilidade antes de pisar no acelerador.






















