Marco Severini — A fotografia é emblemática: tranças apertadas, óculos discretos, um rosto jovem e um sorriso. O traje remete aos anos 1970; apenas a figura do ayatollah Khomeini erguida triunfalmente distingue aquela imagem de um álbum de militância ocidental. Contudo, trata-se de um fenômeno bem mais complexo do que um retrato de solidariedade: é a face de uma aliança tática entre marxistas, feministas e setores religiosos que, por aversão ao Ocidente, apostaram numa mudança que acabaria por devorá-los.
Nos anos que precederam a derrocada do Xá Mohammad Reza Pahlavi, a Pérsia vivia um raro quadro de modernização acelerada — a chamada Revolução Branca: reformas agrárias, programas de alfabetização, medidas de emancipação feminina e abertura econômica. Até mesmo bairros e elites urbanas de Teerã destoavam de boa parte do mundo muçulmano, com minissaias, cinemas e vida universitária condensada em largas avenidas. Para muitos críticos, porém, esse progresso representava uma ocidentalização imposta, uma erosão dos alicerces culturais e políticos locais.
Foi nesse vácuo estratégico que convergiram atores de origens distintas. Estudantes, intelectuais e milícias de esquerda — entre eles o partido Tudeh e grupos como os Fedayin-e Khalq — encontraram utilidade na retórica anti-xá e anti-imperialista de Ruhollah Khomeini, então exilado em Najaf e depois na França. Khomeini não falava a língua do marxismo; seu léxico era teológico: Grande Satã para os Estados Unidos, Pequeno Satã para as potências europeias. Ainda assim, muitos traduziam aqueles termos para um vocabulário que já dominavam: o inimigo era o mesmo — o capitalismo ocidental, o domínio político e cultural do Ocidente.
Entre 1978 e 1979, a aliança tática mostrou sua força: greves gerais, mobilizações estudantis e uma organização clandestina intensa prepararam o terreno para a queda do regime. A leitura estratégica de muitos grupos de esquerda era clara — e arriscada: o islamismo político seria um instrumento transitório para desalojar o Xá e abrir caminho para uma revolução socialista subsequente. No jargão de um tabuleiro de xadrez, tratou-se de sacrificar peças na esperança de um xeque-mate ideológico futuro.
O resultado, porém, foi um movimento decisivo e irreversível no tabuleiro: com o retorno de Khomeini e a consolidação do novo poder, revelou-se a verdadeira natureza do regime que emergia. A República Islâmica mostrou-se incompatível com o pluralismo político. Aqueles que haviam confiado na utilidade instrumental do islamismo foram rapidamente classificados como perigosos dissidentes.
Os relatos e arquivos são irrefutáveis: muitos militantes de esquerda foram presos, julgados sumariamente e executados — alguns deixados expostos em praças públicas como advertência. As mulheres que haviam protestado por direitos, muitas vindas da própria onda de modernização do regime deposto, viram-se também entre as primeiras vítimas das novas estruturas de poder: a retórica de libertação transformou-se em um novo conjunto de restrições e punições.
Essa história é, sobretudo, uma lição de geopolítica aplicada: a convergência entre inimigos comuns pode criar alianças táticas úteis, mas não garante reciprocidade nem compartilha objetivos finais. Quando a força que ascende detém um projeto ideológico tão distinto — neste caso, religioso e teocrático — os aliados temporários podem transformar-se em inimigos prioritários.
Do ponto de vista da tectônica de poder, o episódio ilustra como transformações sociais e políticas podem redesenhar fronteiras invisíveis. A leitura histórica exige calma e precisão: não se trata de demonizar a solidariedade, mas de compreender os riscos estratégicos de alinhar movimentos de emancipação a projetos cujo horizonte de poder diverge profundamente.






















