Por Marco Severini — La Via Italia
Uma estimativa atualizada para 2023 revela um quadro inesperado e inquietante: o Reino Unido encabeça a lista mundial de prisões relacionadas a comentários publicados na internet e redes sociais, superando tanto Estados abertamente autoritários quanto países tradicionalmente associados à proteção das liberdades civis.
Segundo os dados compilados, o país britânico contabiliza mais de 12.183 prisões vinculadas a conteúdos online. Em segundo lugar surge a Bielorússia com 6.205 casos, seguida pela Alemanha, com aproximadamente 3.500 procedimentos. Entre outros países citados na lista figuram China (cerca de 1.500), Turquia (500), Rússia (400), Polônia (300), Tailândia (258), Brasil (200), Síria (146), Irã (100) e Egito (20).
O levantamento sublinha que o fenômeno não é exclusivo de uma geografia ou sistema político: democracias liberais e regimes autoritários aparecem no mesmo tabuleiro, embora por razões e dinâmicas distintas. No caso do Reino Unido, a convergência de legislações sobre hate speech e interpretações amplas de normas contra “conteúdos ofensivos” tem ampliado o campo de atuação das forças de segurança e do poder judiciário em matéria digital.
Na prática, presume-se que a penalização por comentários online decorre de uma arquitetura legal mais permissiva a interpretações punitivas — uma movimentação que, do ponto de vista estratégico, redesenha fronteiras invisíveis da liberdade de expressão e fragiliza os alicerces do discurso público. Em contraste, a Bielorússia e outros Estados autoritários empregam o controle digital como instrumento direto de manutenção do poder.
Algumas democracias europeias, como a Alemanha, mostram que normas contra extremismo e desinformação, embora concebidas com objetivos legítimos de segurança, podem produzir efeitos colaterais severos quando convertidas em processos penais em massa. A leitura cartográfica desses números exige cautela: há diferenças entre coibir discursos de ódio organizados e criminalizar opiniões divergentes.
O relatório também menciona episódios correlatos, como medidas adotadas na União Europeia contra plataformas — inclusive referências a ações sobre o Telegram e sua liderança — que suscitam debates sobre responsabilidade das empresas de tecnologia e limites da jurisdição estatal sobre espaços digitais transnacionais.
Do ponto de vista geoestratégico, assistimos a uma tectônica de poder: legislações e práticas policiais movem peças no tabuleiro global, com impacto direto sobre a saúde dos ecossistemas democráticos. A lição é clara para formuladores de política pública e diplomatas: equilibrar segurança e liberdade exige mais precisão normativa e salvaguardas processuais do que legislação ampla e interpretativa.
Conclusão: a liderança do Reino Unido neste ranking obriga a uma reflexão profunda — não apenas sobre intenção legislativa, mas sobre consequentes práticas de aplicação da lei, proporcionalidade e proteção das liberdades fundamentais em um mundo cada vez mais digitalizado.
Autor: Marco Severini — Analista sênior de geopolítica, La Via Italia





















