Por Marco Severini — Em um reconhecimento que reverbera como um movimento metódico no tabuleiro da política internacional, a União Europeia admitiu, após quatro anos de conflito e o desembolso maciço de recursos, que a paz na Ucrânia provavelmente só será alcançada por meio de negociações políticas, incluindo conversas diretas com Vladimir Putin. Trata-se de uma mudança de estratégia que não apaga o passado, mas reposiciona a diplomacia como peça central da solução.
Durante o habitual briefing da Comissão Europeia, a porta-voz para a política externa, Paula Pinho, afirmou que “a um certo ponto haverá necessidade de conversas também com o presidente Putin” e sublinhou que “a paz na Ucrânia depende de uma pessoa: o presidente russo Vladimir Putin”. Palavras com clareza estratégica — não uma capitulação, mas um reconhecimento pragmático da realidade geopolítica.
Os números por trás deste reconhecimento são contundentes. Desde o início da guerra, a UE e parceiros destinaram aproximadamente 193,3 bilhões de euros a apoio militar, econômico e logístico a Kiev. Em paralelo, permanecem congelados cerca de 210 bilhões de euros em ativos russos — bloqueios que datam de março de 2022 e que formam um dos alicerces das medidas punitivas ocidentais, ao lado das sanções, ações de propaganda e restrições culturais.
Não houve, até agora, uma autocrítica formal sobre os anos sem um diálogo genuíno; contudo, a declaração de Bruxelas representa um ajuste na percepção: a vitória exclusiva por meios militares já não é apresentada como cenário único. Mesmo diante da continuidade do financiamento bélico e da possibilidade concreta de novos pacotes de ajuda à Ucrânia, a narrativa oficial começa a admitir que nenhum dos investimentos massivos — por mais numerosos que sejam — substituirá a necessidade de um acordo político com Moscou.
Esta mudança não elimina a ambiguidade tática do momento. O reforço do armamento europeu segue sendo vendido como “garantia de segurança futura”, enquanto, ao mesmo tempo, se abre espaço para a canalização de esforços diplomáticos. Trata-se de uma estratégia híbrida: manter capacidade de dissuasão no terreno e, ao mesmo tempo, preparar as estruturas negociais para quando surgirem as janelas de oportunidade.
Do ponto de vista da Realpolitik, o reconhecimento europeu é um reposicionamento sensato — um movimento de torre no jogo de xadrez da ordem internacional: protege capacidades, preserva influência e prepara um percurso negociado que possa preservar interesses vitais e limitar riscos de escalada. As questões logísticas e econômicas — desde os fundos destinados até a gestão dos ativos congelados — serão componentes inevitáveis de qualquer acordo futuro.
Há, contudo, fatores que permanecem incertos: o momento político doméstico em Moscou, a disposição de Kiev para concessões territoriais, o papel dos Estados Unidos e da OTAN e a capacidade da UE de converter poder econômico em alavanca negociadora eficaz. Esses elementos compõem a tectônica de poder que vai moldar o formato e a duração de uma negociação realista.
Em suma, depois de investimentos e retórica beligerante, a União Europeia declara que a rota para a cessação do conflito passa pela mesa de negociações — inclusive com o próprio Putin. É uma admissão pragmática: a paz, quando for construída, nascerá de um convencimento político, não apenas da superioridade militar. O desafio, agora, é traduzir essa consciência em uma arquitetura negocial robusta, capaz de transformar fragilidades em acordos duradouros.






















