Por Marco Severini — La Via Italia
A Dinamarca prepara uma proposta voltada aos Estados Unidos para desarmar um confronto direto em torno da Groenlândia. Em termos práticos, Copenhague estaria disposta a considerar a instalação de até 10 bases militares americanas na ilha ártica, ao mesmo tempo em que oferece um acesso privilegiado a jazidas de petróleo e de terras raras, em troca de uma parceria ampliada de caráter econômico e de uma renúncia explícita a “opções de força”.
Trata‑se de um movimento cuidadosamente calculado — um lance no tabuleiro estratégico — destinado a conter a pressão de Washington depois das declarações do ex‑presidente Donald Trump, que não excluiu “nenhuma opção” para aumentar o controle sobre a região. No centro da iniciativa estão a reativação do acordo de defesa de 1951, a atualização da Declaração Conjunta de 2004 e o redimensionamento do papel da região do Ártico nas arquiteturas de segurança ocidentais.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, tem um encontro previsto com altos representantes do governo dinamarquês — reunião que, segundo fontes, poderá contar também com representantes do governo autônomo da Groenlândia, dada a natureza sensível do assunto para o futuro político e econômico da ilha, que é território especial da Dinamarca.
Reagindo ao tom beligerante de Washington, a primeira‑ministra Mette Frederiksen deixou para trás a fase do protesto público, adotando uma estratégia negociada e pragmática: colocar sobre a mesa garantias de segurança e a manutenção da soberania dinamarquesa em troca de investimentos norte‑americanos significativos e de compromisso com o desenvolvimento económico local.
A proposta passa pela revitalização de cláusulas já previstas na Declaração Conjunta de 6 de agosto de 2004, que abre portas a cooperação em pesquisa, tecnologia, energia, ambiente, educação, desenvolvimento e transportes. Na retórica, esses instrumentos têm papel ambíguo: durante anos foram mais declarações de princípio do que mecanismos operacionais. Agora, com a tectônica de poder voltada ao Ártico, podem converter‑se rapidamente em ferramentas práticas para o acesso a recursos estratégicos — nomeadamente depósitos de terras raras, hidrocarbonetos e minérios essenciais à indústria de alta tecnologia e à transição energética.
Do lado groenlandês, a equação é complexa. Cinco partidos locais já afirmaram que a população deseja decidir seu próprio destino e rejeita ser empurrada — à força ou por pressão econômica — para pertencer unilateralmente aos Estados Unidos ou à Dinamarca. Em demonstração de descontentamento, houve boicotes simbólicos a produtos e serviços americanos, gesto que combina sensibilidade identitária e cálculo político: uma peça no jogo que define quem move as peças e quem responde às jogadas.
Geopoliticamente, a questão expõe a fragilidade dos alicerces da diplomacia ocidental: a NATO e a Europa enfrentam uma prova de credibilidade sobre até que ponto conseguem articular defesa coletiva e respeito à soberania dos Estados parceiros. A Groenlândia volta a ser um espaço onde se sobrepõem interesses de segurança, economia e autodeterminação — um tabuleiro em que cada movimento altera linhas de influência e reconfigura corredores estratégicos no Ártico.
Para a Dinamarca, oferecer acesso condicionado a bases e recursos é um cálculo de risco: garante engajamento e investimentos, mas exige cuidar da opinião pública groenlandesa e assegurar que a soberania formal não seja corroída por acordos que favoreçam predominantemente interesses externos. Para os EUA, a oportunidade de ampliar presença numa região em transformação climática e geopolítica chama‑se a reafirmação de influência num corredor estratégico curto entre o Atlântico Norte e o Oceano Ártico.
Em síntese, a proposta dinamarquesa, caso formalizada, representa um movimento estratégico relevante, desenhado para transformar uma eventual confrontação em uma aliança de conveniência — uma tentativa de redesenhar fronteiras invisíveis da influência no Ártico. Resta ver se o acordo conseguirá equilibrar interesses mútuos, preservar direitos de autodeterminação groenlandesa e manter intactos os alicerces da soberania dinamarquesa.





















