Por Marco Severini – Em um movimento que reverbera além dos salões do Vaticano, Papa Leone XIV recebeu em audiência privada, na manhã de 12 de janeiro de 2026, a líder da oposição venezuelana e laureada com o Prêmio Nobel da Paz, Maria Corina Machado. O encontro ocorre a pouco mais de uma semana da captura de Nicolás Maduro, após a intervenção militar dos Estados Unidos no território venezuelano, um evento que redesenha, de forma abrupta, os eixos de influência na região.
Segundo comunicado divulgado pela agenda papal, a audiência foi breve, mas carregada de conteúdo político e humanitário. Em mensagens públicas e pela conta Comando ConVzla, Machado relatou que pediu ao Pontífice que interceda pela libertação dos mais de mil prisioneiros políticos e pelo avanço célere de uma transição para a democracia no país. “Hoje tive a bênção e a honra de poder partilhar com Sua Santidade e agradecer pelo seu apoio contínuo ao que acontece em nosso país”, escreveu a dirigente venezuelana.
Na sua fala ao público, Machado sublinhou ainda a dimensão espiritual do sofrimento venezuelano: evocou a resistência diária do povo, a fé como cimento dos alicerces morais e a esperança de que a comunidade internacional — com a Igreja Católica como ator moral — contribua para acelerar uma solução pacífica que restitua liberdades e direitos.
O próprio Papa Leone XIV havia demonstrado nos últimos dias inquietação com os acontecimentos na Venezuela. No Angelus que se seguiu à intervenção norte-americana, o Pontífice declarou: “Sigo com grande preocupação os desenvolvimentos na Venezuela” e enfatizou que “o bem do amado povo venezuelano deve prevalecer sobre qualquer outro interesse”. Em seu discurso ao corpo diplomático, renovou o apelo ao respeito da vontade popular e à busca de soluções não condicionadas por “interesses de parte”, lembrando que a proteção das liberdades civis e dos direitos humanos deve ser princípios orientadores de qualquer saída.
O simbolismo do encontro — uma dirigente de oposição, laureada com o Nobel, conversando a portas fechadas com a mais alta figura da diplomacia moral católica — revela a sensibilidade do Vaticano frente a uma crise cuja tectônica de poder ameaça desestabilizar a região. Em termos de geopolítica, estamos diante de um movimento que pode ser comparado a uma jogada decisiva no tabuleiro: as peças se movimentam, e as reações dos grandes atores determinarão até que ponto as fronteiras da influência serão redesenhadas.
O contexto diplomático também registrou, no mesmo dia, um desfecho prático que ilustra as complexas linhas de colaboração entre Estados e instituições: o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Itália, Antonio Tajani, anunciou o retorno de dois cidadãos italianos — Alberto Trentini e Mario Burlo — detidos na Venezuela desde novembro de 2024. A soltura e a repatriação desses detidos foram recebidas como um pequeno, porém significativo, sinal de que pressões diplomáticas e humanitárias podem produzir efeitos concretos.
Para a oposição venezuelana, o encontro com o Pontífice não é apenas um ato de reconhecimento internacional; é também um pedido público de respaldo moral que, na leitura cuidada de observadores, pode amplificar o apelo por garantias para uma transição ordenada. Machado afirmou ter transmitido a “força do povo venezuelano” e solicitado orações pelos desaparecidos e pelos que ainda padecem sob detenção.
O Vaticano, por sua vez, mantém uma postura tradicionalmente orientada para a mediação moral e pela defesa de princípios universais. Neste episódio, o papel do Papa assemelha-se ao de um arquiteto da estabilidade: sem tomar partido militar, procura salvaguardar os alicerces frágeis da diplomacia e estimular soluções que preservem a dignidade humana.
Em suma, a audiência entre Papa Leone XIV e Maria Corina Machado é um movimento de alta simbologia num momento de tensão internacional. A Igreja reafirma sua preocupação com a proteção dos direitos humanos na Venezuela e pede que se priorize o bem-estar da população — um imperativo que, se acatado, poderá mitigar a escalada e abrir caminho para pactos políticos e humanitários indispensáveis.






















