Enquanto os iranianos despertam para o quarto dia do apagão digital, monitoramento internacional registra mais de 84 horas de blackout em escala nacional. A organização Netblocks, que acompanha restrições de acesso à internet promovidas por governos, confirma o período prolongado de interrupção e relata tentativas dos ativistas de buscar canais alternativos de comunicação: rádios de ondas curtas, torres celulares nas fronteiras, terminais Starlink e conexões diretas via satélite às antenas de telefonia celular.
Um vídeo divulgado pelo canal “UK Report” no X mostra constelações de satélites sobrevoando o território iraniano, ao mesmo tempo em que o ex-presidente Donald Trump, gravado a bordo do Air Force One, afirmou que está em contato com Elon Musk para que a infraestrutura Starlink possa ser posta à disposição dos iranianos e restabelecer as comunicações.
Na superfície, trata-se de um movimento com forte carga simbólica: a presença dos satélites no imaginário público tende a representar um apoio técnico à rebelião interna, pelo menos no nível do acesso à informação. O bloqueio de internet, como se sabe, é um instrumento eficaz para obscurecer operações repressivas — impede a publicação de imagens, o fluxo de testemunhos e a coordenação entre protestos. Contudo, a pergunta técnica e geopolítica é mais complexa: os sistemas de Musk são capazes de contornar, de forma indiscriminada, os mecanismos de cerco digital do regime?
Capacidades técnicas e limitações
Resposta curta: sim e não. Em termos práticos, há múltiplos modos de acesso às redes Starlink. O modelo tradicional — uma antena parabólica ligada a um modem — permite comunicação via satélite independentemente da infraestrutura local, desde que o equipamento esteja presente. No entanto, o serviço de “direct to cell”, que envia sinal diretamente para telefones móveis sem necessidade de antena externa, exige duas condições cruciais: celulares de última geração compatíveis e acordos com operadoras locais “a terra”. Exemplos recentes mostram que esse modo funciona quando existe parceria comercial, como ocorreu com provedores em alguns países ocidentais, mas não está operacional no momento no Irã, por causa de restrições governamentais e da ausência de parcerias locais.
Na prática, os iranianos que atualmente conseguem usar Starlink são aqueles que, clandestinamente ou por sorte, dispõem de um modem e de uma antena compatível — hardware cujo custo na Europa gira na faixa de €200 a €400. Um único terminal, se acoplado a distribuidores e repetidores, pode prover conectividade a dezenas ou centenas de pessoas, embora isso reduza significativamente a largura de banda por usuário e exponha os utilizadores a riscos legais e de segurança pessoal.
Implicações estratégicas e riscos diplomáticos
Num plano mais alto, a oferta ou ativação de Starlink sobre o território iraniano teria impacto duplo: facilitaria o fluxo de informação — um movimento decisivo no tabuleiro da legitimidade — e, simultaneamente, poderia ser interpretada por Teerã como uma ação de ingerência. O equipamento poderia tornar-se alvo de medidas coercitivas, desde bloqueios direcionados até tentativas de geolocalização e repressão física. Além disso, uma intervenção desse tipo redesenharia, ainda que discretamente, as fronteiras de influência digital entre Washington e Teerã, com potenciais repercussões junto a atores como Moscou e Pequim, atentos a precedentes que afetem suas próprias zonas de controle.
O caso recente da Ucrânia ilustra um ponto da tectônica de poder: em zonas de conflito, Starlink foi decisivo para conectar forças no terreno e garantir comunicações resilientes. Mas cada teatro tem suas singularidades. No Irã, a combinação entre vigilância interna, capacidade repressiva e ausência de parceiros locais transforma uma solução técnica numa jogada de elevado risco político. Como diplomata da informação, observo que, mais do que tecnologia, estamos diante de um problema de ordenamento estratégico — os alicerces da diplomacia podem ficar frágeis quando infraestrutura privada se torna ferramenta de política externa.
Em suma, a ativação de Starlink sobre o Irã seria um movimento importante no tabuleiro, com capacidade real de mitigar parcialmente o blackout. Mas não é uma bala de prata: limitações técnicas, custos logísticos, riscos legais para usuários e potencial escalada diplomática tornam a manobra um lance de alto risco, que exige cálculo frio e precisa de uma arquitetura de respaldo político e humanitário.






















