Por Aurora Bellini — Na região montanhosa do Ladakh, no coração do Himalaia, uma sombra de quatro patas vem alterando o cotidiano e os delicados equilíbrios naturais: a proliferação de cães randágios. Dados locais indicam que cerca de 25 mil cães circulam livremente nos centros urbanos da área, muitos portadores de doenças infecciosas, entre as quais a temida raiva. A partir da nossa apuração, essas populações cresceram a ponto de transformar a convivência entre pessoas e natureza, aquecendo o debate sobre a gestão dos animais e a proteção das espécies nativas.
A escala do fenômeno se insere em um cenário maior: em 2021, foram estimados cerca de 35 milhões de cães vagabundos em toda a Índia. No Ladakh, o problema tem raízes históricas e socioeconômicas. Segundo as investigações do projeto governamental Secure Himalaya — conduzido em colaboração com o Departamento florestal e o Observatório zoológico indiano — muitos desses animais foram inicialmente introduzidos por forças militares nas décadas de 1960 e 1970. Até os anos 1990, sua presença era concentrada nas proximidades das bases; a explosão do turismo no início do século XXI e a abertura de novas infraestruturas aceleraram a dispersão.
Além disso, o suporte humano, mesmo que bem-intencionado, alimenta os núcleos: voluntários espalham recipientes com comida e restos de restaurantes e cantinas ampliaram a oferta de resíduos, fortalecendo a autonomia dos bandos. Os cães passam a vasculhar lixeiras e a frequentar áreas urbanizadas, o que os aproxima de comunidades e também de espécies silvestres.
Com a diminuição do turismo e o recolhimento das guarnições durante o inverno, muitos cães voltam sua atenção para rebanhos e fauna local. São reportados ataques a cabeças de gado e predação de espécies sensíveis, como o kiang tibetano (Equus kiang), as lebres lanosas (Lepus oiostolus), a marmota do Himalaia (Marmota himalayana) e aves aquáticas. Para aves emblemáticas do território, como o grou-de-pescoço-negro (Grus nigricollis), os cães representam hoje uma ameaça que chega a ser descrita por especialistas locais como uma «desafio existencial».
Mesmo quando não abatem diretamente os animais, os cães randágios competem por carcaças e recursos alimentares, alterando cadeias tróficas e acelerando pressões sobre populações selvagens já fragilizadas. Além disso, o risco sanitário — com casos de raiva e outras zoonoses — aumenta a apreensão entre moradores, que passaram a evitar deslocamentos noturnos e a limitar atividades ao ar livre.
Diante desse quadro, autoridades e organizações locais discutem medidas de manejo que concilie proteção da biodiversidade com bem-estar animal e segurança humana. As opções em debate incluem campanhas de vacinação e esterilização, planos de controle populacional éticos, e ações de educação comunitária sobre descarte de resíduos e alimentação de animais. Para ser eficaz, qualquer intervenção precisa tecer parcerias locais, respeitar as comunidades nativas e espelhar um compromisso com soluções de longo prazo.
Iluminar esse problema exige que convoquemos conhecimento científico, políticas públicas responsáveis e a participação das pessoas que vivem no território: é urgente semear iniciativas que protejam os ecossistemas do Himalaia e garantam segurança às comunidades. O desafio é complexo, mas não é insolúvel — exige que cultivemos métodos compassivos e eficazes, capazes de restaurar um horizonte límpido para a vida selvagem e humana no Ladakh.






















