Por Aurora Bellini — A chegada de um cachorro à família é sempre um momento de luz: abre-se um novo horizonte de afeto, responsabilidade e aprendizado. Mas é essencial que as crianças aprendam desde cedo que o cão não é um peluche e que respeitar seu corpo, seus sinais e seus limites é a melhor forma de evitar conflitos e mordidas indesejadas.
A instrutora e reabilitadora comportamental Irene Sofia, autora de uma obra infantil sobre convivência com cães, aponta que muitas vezes as crianças veem os animais como iguais parceiros de brincadeira. Essa visão, embora natural, pode transformar interações em episódios perigosos quando a irruência e a excitação se sobrepõem ao cuidado: corridas, gritos, puxões de rabo ou orelhas e agarrões podem ativar uma resposta exuberante do cão, especialmente se for filhote, levando a brincadeiras descontroladas e, em casos extremos, a mordidas por euforia.
Não é um problema apenas dos filhotes. Cães adultos também podem se sentir ameaçados ou sobrecarregados por comportamentos bruscos. Em meio à agitação, os sinais sutis de desconforto — lambedura de focinho, bocejo, virar de cabeça, olhar lateral (“whale eye”), orelhas baixas, rabo encolhido — podem passar despercebidos. Se ignorados, esses sinais evoluem para formas de comunicação menos amistosas: rosnados, tentativas de se afastar ou, infelizmente, uma mordida.
Para cultivar uma convivência serena e segura, eis orientações práticas e humanas que os pais e cuidadores podem adotar, iluminando caminhos de respeito e empatia:
- Mediação adulta: Os responsáveis devem sempre supervisionar as interações e servir de modelo. A criança aprende mais observando como o adulto age com o animal do que com regras ditadas sem exemplo.
- Ensinar a linguagem do cão: Mostre às crianças os sinais de conforto e estresse do animal usando imagens, jogos e dramatizações. Exemplos práticos ajudam a fixar o aprendizado.
- Zona de descanso sagrada: Explique que a cama, casinha ou área do cão é um espaço pessoal. Ensine a criança a pedir permissão antes de se aproximar.
- Toque gentil: Demonstre o que é um afago correto — evitar olhos, orelhas e rabo; acariciar lateral do corpo e pescoço com calma.
- Sem abraços forçados: Muitos cães não gostam de serem apertados. Ensine que o abraço apertado não é uma boa forma de demonstrar carinho.
- Evitar interrupções durante refeições e sonecas: Comer ou dormir são momentos em que cães podem reagir se perturbados.
- Transformar aprendizado em brincadeira segura: Use bonecos ou pelúcias para ensaiar comportamentos, fazendo com que a criança pratique movimentos lentos e suaves.
- Regras claras e consistentes: Estabeleça rotinas e limites — por exemplo, não correr atrás do cão, não puxar pelos pelos ou tomar brinquedos à força.
- Procure ajuda profissional: Em caso de dúvidas sobre comportamento, um treinador ou comportamentalista pode orientar com estratégias positivas.
Ao cultivar a empatia — ensinar a criança a colocar-se no lugar do outro — sem alarmismo, os adultos semeiam respeito. Uma criança que aprende a ler sinais caninos cresce com mais segurança, responsabilidade e afeto verdadeiro. É um pequeno renascimento cultural: transformamos excitação desenfreada em vínculo consciente.
Por fim, um gesto prático e simbólico: quando um cão se aproxima de forma calma e amigável, incentive a criança a oferecer a mão com o punho fechado para que o animal cheire — uma forma segura de apresentação. Aos pais, recomendo também a prática da paciência e do exemplo — a maior luz que podemos dar aos pequenos.
Conviver bem com um animal é construir pontes. Com educação, limites e afeto, o lar se torna um lugar onde todas as espécies se sentem respeitadas e protegidas — um horizonte límpido de convivência.





















