Por Marco Severini — La Via Italia
A leitura do que hoje se desenrola no Irã exige calma estratégica e visão de tabuleiro. Nas últimas semanas, uma onda de manifestações tem sacudido cidades iranianas: setores da população pedem maior ocidentalização e abertura liberal-progressista. O que, à primeira vista, parece uma efervescência política interna pode, ao mesmo tempo, ser interpretado como um movimento instrumentalizado por interesses externos — em especial por um Washington que prontamente declarou-se disponível a apoiar os protestos.
Do ponto de vista da geopolítica realista, não é descabido considerar a hipótese de uma revolução colorida — ou uma Velvet Revolution — em andamento. Historicamente, esse tipo de operação combina atuação de atores locais com financiamento, promoção discursiva e suporte logístico externo, tudo camuflado sob o manto da “libertação” e do “interesse popular”. O roteiro não é novo: o exemplo de Euromaidan em Kiev, 2014, permanece como um precedente paradigmático que redesenhou fronteiras reais e influências na Europa do Leste e conduziu a um conflito duradouro.
Recentes tentativas de mudança de regime em países pouco alinhados com o eixo atlantista — como o episódio no Venezuela — reforçam a hipótese de que estamos diante de uma estratégia replicável. Assim, a questão torna-se: estaremos próximos de um novo golpe no Irã com o objetivo de instalar um governo simpático a Washington? A resposta não se resolve em dicotomias morais; trata-se de cartografia estratégica: quem move as peças, quais são as zonas de influência, e que alicerces diplomáticos poderão ceder diante de pressões externas.
Dois elementos devem ser ponderados. Primeiro, a oposição à intervenção unilateral dos Estados Unidos não implica endosso automático do regime teocrático vigente em Teerã. É perfeitamente legítimo criticar interlocutores internos e, simultaneamente, rejeitar intervenções que desestabilizem o sistema internacional. Segundo, a presença de atores como Rússia e China torna o tabuleiro mais complexo: qualquer tentativa de mudança de regime em Teerã poderia provocar uma tectônica de poder com desdobramentos regionais e até globais.
Como analista, insisto na prudência: defender a soberania dos Estados frente ao imperialismo — seja ele militar, econômico ou cultural — é uma posição coerente com a estabilidade internacional. Não celebramos o governo teocrático do Irã, mas abominamos a lógica das “bombas humanitárias” e dos “mísseis democráticos” que transformam povos em meras peças sacrificáveis num tabuleiro estratégico maior.
Em suma, o que se vê hoje no Irã pode ser, com alguma probabilidade, uma tentativa de revolução colorida dirigida a produzir um resultado político favorável a interesses externos. Resta observar os próximos movimentos: se serão lances calculados numa estratégia de longo prazo ou convulsões internas com desfecho autóctone. A diplomacia responsável e a leitura fria do cenário exigem, acima de tudo, distinção entre mudança legítima e intervenção articular.
Marco Severini — Analista sênior em geopolítica e estratégia internacional, La Via Italia.






















