Marco Severini — Em uma manobra que reconfigura, ainda que discretamente, a tectônica de poder entre Roma e Caracas, o cooperante italiano Alberto Trentini, 46 anos, foi libertado às primeiras horas de 12 de janeiro de 2026, após 423 dias de detenção num presídio de segurança máxima do Venezuela sem acusações formais nem processo judicial.
Trentini, natural do Lido de Veneza, trabalhava para a ONG Humanity & Inclusion e havia chegado ao país em outubro de 2024 para uma missão humanitária. Foi detido em 15 de novembro de 2024, cerca de três semanas após sua chegada, enquanto se deslocava de Caracas para Guasdualito, no Estado de Apure, ao ser retido em um posto de controle. Desde então permaneceu encarcerado em El Rodeo I, sem que as autoridades venezuelanas apresentassem formalmente quaisquer acusações ou iniciassem um processo.
Na mesma madrugada, outro cidadão italiano, o contabilista Mario Burlò, também foi liberado — ele esteve detido por 428 dias. As duas liberdades foram executadas num quadro de negociações diplomáticas que culminaram com um voo partindo de Roma para Caracas, organizado para repatriar os dois compatriotas.
Fontes oficiais italianas indicam que a Farnesina acompanhou de perto o caso, em articulação com representantes consulares e com interlocutores venezuelanos. As condições impostas pelas autoridades de Caracas para os libertos incluíam, segundo relatos, cláusulas de silêncio de imprensa — um aspecto que sublinha o caráter sensível e a intenção de minimizar a exposição pública do acordo.
O percurso pessoal de Alberto Trentini descreve um perfil profissional estritamente humanitário, distante de qualquer atividade política ou militar. Graduado em História pela Università Ca’ Foscari di Venezia, com especialização em cooperação internacional e formação complementar no Reino Unido, ele acumulou mais de uma década de trabalho em zonas de crise. Entre as organizações para as quais atuou estão Focsiv, Cefa, Coopi e o Danish Refugee Council. Sua experiência inclui missões no Equador, Etiópia, Nepal, Líbano e outras geografias, voltadas principalmente para a assistência a pessoas com deficiência e a promoção da inclusão social.
Do ponto de vista estratégico, a libertação de Trentini e Burlò traduz um movimento cuidadosamente calibrado. Não se trata apenas da resolução de um caso individual, mas de um reposicionamento diplomático: Roma recupera dois cidadãos e, simultaneamente, evita que a situação se transforme em um incidente bilateral de maior roce com repercussões na arena multilateral. Trata-se de um movimento decisivo no tabuleiro, que privilegia a estabilidade das relações e a preservação de canais de diálogo, mesmo sob a pressão de opiniões públicas e organismos de direitos humanos.
Organizações de direitos humanos e entidades do terceiro setor têm denunciado, ao longo do período de detenção, a ausência de transparência no trato dos detidos, bem como a prática de encarceramentos prolongados sem apresentação de acusações claras. A liberação, embora celebrada, reabre a discussão sobre práticas judiciais e o uso do aparato penal como instrumento de pressão politica em contextos internos e regionais.
À medida que Trentini e Burlò embarcam de volta à Itália, o caso permanecerá como um ponto de observação sobre as relações Rome–Caracas e sobre a capacidade de diplomacia discreta para resolver crises humanas. Para além do alívio pessoal e familiar, resta a tarefa de analisar os alicerces frágeis da diplomacia que permitiram a detenção prolongada sem processo — uma lição sobre as fronteiras invisíveis que importam no jogo das influências.






















