Em 12 de janeiro de 1976, há cinquenta anos, nos deixava Agatha Christie, a escritora que transformou o romance policial em um espelho do nosso tempo. A autora faleceu por causas naturais em sua casa, a Winterbrook House, no vilarejo de Wallingford, em Oxfordshire, onde passou os últimos anos de sua vida. Sua partida marcou o fim de uma era para o gênero, mas o roteiro oculto que deixou reverbera até hoje nas estantes e nas telas.
Os livros de Agatha Christie divertem, surpreendem e interrogam: não entediam. Ela criou personagens que se tornaram arquétipos culturais, especialmente Hercule Poirot, o detetive belga de raciocínio impecável e bigodes meticulosos — que completou cem anos em 2020 — e Miss Marple, a astuta senhora observadora dos pequenos pormenores da vida do vilarejo. Esses personagens não são apenas protagonistas de tramas; são lentes para ler códigos sociais e memórias coletivas.
Nascida Agatha Mary Clarissa Miller em 15 de setembro de 1890, em Torquay, ela foi a segunda filha de Fred Miller, um empresário americano, e Clara Boehmer, mulher de educação refinada e interesse pelo paranormal. A infância foi marcada por uma calma aparente e pela dor precoce da perda do pai, quando Agatha tinha onze anos. Em 1912 conheceu Archibald Christie, oficial da Royal Flying Corps; casaram-se em 24 de dezembro de 1914.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Agatha serviu como voluntária na Cruz Vermelha, trabalhando em enfermarias e adquirindo conhecimento sobre venenos — saber que se tornaria ferramenta essencial em muitos de seus primeiros romances. Foi também na mesma época que conheceu refugiados belgas, inspiração direta para a criação de Hercule Poirot.
O debut literário aconteceu em 1920 com The Mysterious Affair at Styles — lançado em italiano como Poirot a Styles Court — que apresentou ao mundo Poirot e selou o começo de uma carreira notável. Ao longo da vida, Agatha Christie produziu mais de sessenta romances, mais de cento e cinquenta contos e dezoito peças de teatro. Seus livros, traduzidos para mais de cinquenta idiomas, ultrapassaram a marca de dois bilhões de exemplares vendidos, fazendo dela uma das autoras mais lidas da história.
Seus textos também ganharam o grande e o pequeno écran: adaptações não faltam, e as encarnações contemporâneas de Poirot por Kenneth Branagh em Assassinato no Expresso do Oriente (2017), Assassinato no Nilo (2022) e Assassinato em Veneza (2023) reacenderam o interesse por sua obra em escala global. O teatro, o cinema e as séries quebram e reconstroem suas tramas como peças de um quebra-cabeça cultural, mostrando que a semiótica do viral também passa pelo clássico.
Nem tudo, porém, foi enredo romântico e sucesso editorial. A vida pessoal de Christie teve episódios dramáticos que alimentaram o imaginário público, como o famoso desaparecimento de 1926 — quando, após o anúncio de sua separação, ela sumiu por onze dias, provocando comoção nacional e uma busca intensa. Esses episódios biográficos se entrelaçam com seus romances, criando camadas de leitura sobre identidade, memória e performance social.
Em 1971, em reconhecimento ao impacto cultural de sua obra, Agatha Christie foi agraciada pela rainha Elizabeth II com o título de Dama do Império Britânico. Ainda hoje, meio século após sua morte, sua obra funciona como um reframe da realidade: entre pistas e enganos, ela nos convida a observar as tramas humanas e os pequenos sinais que revelam verdades maiores.
Celebrar os 50 anos da sua partida é menos uma saudade nostálgica e mais um convite a reler seus livros como reflexos do presente. O entretenimento que ela legou nunca foi apenas passatempo; é uma cartografia de nossas contradições, um levantamento atento das máscaras sociais e das estruturas que moldam o crime e o sentido.






















