O cenário em Gaza avançou para uma fase de transição incerta nesta segunda-feira: o movimento Hamas afirmou que está pronto a ceder o governo da Faixa de Gaza a um comitê de tecnocratas palestinos, conforme prevê o plano de cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos. A declaração ocorre no momento em que o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, de 90 anos, foi internado às pressas em Ramallah para exames médicos de rotina, segundo a agência de notícias palestina Wafa.
Em vídeo divulgado por seu porta-voz, Hazem Kassem, o Hamas afirmou ter dado orientações a todas as suas agências e órgãos governamentais em Gaza para que se preparem a transferir suas competências a um “comitê tecnocrático palestino independente”. O movimento qualificou a decisão como “clara e definitiva” e disse que as instruções visam facilitar o sucesso do órgão e contribuir para o “interesse nacional superior” e para a implementação do plano que busca pôr fim à guerra na região.
O anúncio, no entanto, deixa muitas lacunas. Não foram divulgados nomes dos tecnocratas — que, segundo as expectativas, não seriam figuras políticas tradicionais — nem ficou claro se suas nomeações receberão a aprovação de Israel e dos Estados Unidos. Também não há cronograma preciso para a transição, apenas a referência de que ela ocorreria quando o comitê diretivo de tecnocratas assumir o controle da Faixa de Gaza, conforme o plano de paz mediado por Donald Trump.
O texto do acordo prevê, além da entrega de autoridade administrativa, que o chamado Conselho de Paz supervisione o governo tecnocrático e outros pontos essenciais do cessar-fogo instaurado em 10 de outubro: o desarmamento do Hamas e o envio de uma força de segurança internacional para a área. Ainda não se sabe, porém, qual será o formato exato desse Conselho nem quem integrará o comitê que administrará a enclave.
Enquanto as negociações e anúncios ocorram no nível das cúpulas, a tensão na região segue alta. Autoridades de saúde de Gaza informaram que pelo menos três palestinos foram mortos em dois incidentes distintos. Um deles foi atingido no bairro de Tuffah, em Gaza City — zona sob controle do Hamas — e outros dois, em Bani Suhaila, a leste de Khan Younis, em área situada no chamado lado controlado por Israel da Linha Amarela.
No plano político interno de Israel, outro desenvolvimento repercute em Jerusalém: a polícia israelense prendeu para interrogatório Tzachi Braverman, chefe de gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, sob suspeita de tentar obstruir uma investigação sobre vazamento de informações de inteligência ao tabloide alemão Bild. A detenção foi realizada por agentes da unidade Lahav 433, segundo o Times of Israel.
O anúncio do Hamas e os incidentes recentes desenham um quadro em que a “construção de direitos” e a arquitetura institucional da Faixa de Gaza estão sendo reerguidas em meio a ruínas e incertezas. Há uma necessidade prática de criar pontes — tanto entre facções palestinas quanto entre a sociedade civil e atores internacionais — para que qualquer transição tenha respaldo operacional e legitimidade. Até lá, a fragilidade do cessar-fogo e o peso da caneta nas decisões políticas seguem determinando o espaço de manobra dos civis.






















