Uma noite de tapete vermelho que mais parecia um espelho do nosso tempo: os Golden Globes de 2026 redesenharam, em poucas horas, parte do mapa afetivo de Hollywood. Em um momento carregado de reverência, Julia Roberts recebeu uma calorosa ovação de pé ao subir ao palco para anunciar os finalistas na categoria de comédia/musical — gesto que, mesmo sem o troféu, consolida seu estatuto na História da indústria.
Mas a grande surpresa da noite foi a consagração do jovem Timothée Chalamet como Melhor Ator por sua performance em “Marty Supreme”. A vitória do ator, que tirou o troféu de nomes pesados como Leonardo DiCaprio e George Clooney, é um sinal claro de mudança geracional: não é apenas sobre idades, mas sobre novas formas de protagonismo no cinema contemporâneo.
No terreno dos dramas, o prêmio de Melhor Filme Dramático foi para “Hamnet – Nel nome del figlio”, adaptação dirigida por Chloé Zhao do romance premiado da norte-irlandesa Maggie O’Farrell. A escolha indica que a Academia da imprensa estrangeira em Hollywood está atenta a obras que costuram história e emoção — a versão romanesca da morte do filho de William Shakespeare, que o filme imagina ter sido o combustível para a criação de Amleto, conquistou a crítica e agora tem caminho aberto para o Oscar.
Escrito por Zhao e O’Farrell, o filme destacou a figura de Agnes, vivida por Jessie Buckley, personagem quase mítica cuja dor pela perda do filho transforma-se em narrativo central. Buckley levou o Golden Globe de Melhor Atriz em Filme Dramático, enquanto Paul Mescal recebeu indicação a Melhor Ator Coadjuvante por seu retrato de Shakespeare.
Ao lado de Hamnet, outras obras marcaram a primeira noite do circuito de premiações. A minissérie britânica Adolescence, centrada na vida de um jovem em conflito, foi uma das grandes vencedoras: quatro prêmios, incluindo Melhor Minissérie, Melhor Ator e o reconhecimento ao jovem Owen Cooper, de 16 anos, como Melhor Ator Coadjuvante. Já Uma batalha depois da outra (título traduzido) partiu com nove indicações e saiu com quatro estatuetas, inclusive a de Melhor Comédia.
O resultado da noite compõe um retrato interessantemente fragmentado do presente cinematográfico: há espaço para recontar clássicos da cultura (no caso, a família e a tragédia shakespeariana), e há também lugar para novas vozes e formas narrativas que reescrevem o roteiro das nossas sensibilidades. A derrota de nomes consagrados como DiCaprio e Clooney em favor de Chalamet não é uma negação do passado, mas a confirmação de que o cinema segue se renovando.
Em suma, os Golden Globes 2026 ofereceram uma noite de celebração onde tradição e novidade se tocaram — uma síntese que, como um bom filme, nos convida a olhar para o porquê por trás de cada escolha: quais narrativas queremos que permaneçam e quais vozes devem ganhar mais espaço no grande circuito.
Principais vencedores:
- Melhor Filme Dramático: Hamnet – Nel nome del figlio
- Melhor Ator: Timothée Chalamet — Marty Supreme
- Melhor Atriz (Drama): Jessie Buckley — Hamnet
- Melhor Minissérie: Adolescence
- Melhor Comédia: Uma batalha depois da outra






















