O circuito pré-Oscar acaba de aquecer e já se desenha um embate potente entre Una Batalgia Dietro l’Altra e Hamnet, após a noite dos Golden Globe em Beverly Hills, transmitida pela CBS. O filme de P.T. Anderson, liderando com nove indicações, saiu do tapete vermelho com quatro estatuetas — incluindo melhor filme (comédia/musical) — enquanto Hamnet, a comovente reinterpretação da história de Agnes, esposa de William Shakespeare, foi coroado como melhor filme dramático.
No centro desse duelo dramático está a figura de Leonardo DiCaprio, que interpreta um revolucionário envelhecido forçado a retornar à militância para salvar a filha de um inimigo poderoso e corrupto. Una Batalgia Dietro l’Altra não apenas conquistou prêmios técnicos e de roteiro, como também levou a estatueta de melhor atriz coadjuvante para Teyana Taylor, consolidando a presença do filme como candidato de peso para a corrida ao Oscar.
Do lado emocional e contemplativo, Hamnet encontrou seu espaço entre a crítica e o público, refletindo um tipo de cinema que funciona como espelho do nosso tempo: íntimo, histórico e, ao mesmo tempo, subversivamente contemporâneo. A vitória de Jessie Buckley por sua atuação reforça a sensação de que o roteiro oculto da indústria este ano privilegia narrativas de intimidade e reconstrução.
Outros vencedores notáveis da noite incluem Sinners, de Ryan Coogler, que faturou dois prêmios — um deles reconhecendo um desempenho robusto nas bilheterias (US$ 278 milhões apenas nos EUA), fruto de uma exibição prolongada entre a Páscoa e julho. Já The Secret Agent se destacou como melhor filme internacional, derrotando favoritos como Sentimental Value e Un Semplice Incidente de Jafar Panahi, enquanto o ator Wagner Moura recebeu o Globo de Ouro de melhor ator em filme dramático, marcando um momento histórico como o primeiro brasileiro a conquistar esse prêmio nessa categoria.
No front televisivo, a série britânica Adolescence dominou com quatro globos; performances como a de Jean Smart em Hacks e Noah Wyle em The Pitt também foram reconhecidas individualmente. Entre os vencedores que celebraram a primeira estatueta na carreira destacam-se Timothée Chalamet por Marty Supreme e Rose Byrne por If I Had Legs I’d Kick You. Chalamet, quatro vezes indicado anteriormente, comentou no palco que as memórias das indicações anteriores tornam este momento “mais doce”.
Enquanto isso, a corrida ao Oscar entra em nova fase: os membros da Academia iniciam hoje os votos e as indicações serão anunciadas em 22 de janeiro. Essa janela é decisiva, pois pressiona a narrativa pública — o que até aqui foi moldado pelos Golden Globe pode ser reconfigurado pela composição da votação da Academia, mais internacional e diversa.
Não faltou combustível cênico na transmissão: a CBS repetiu a aposta em Nikki Glaser como apresentadora, cujo monólogo cortante passeou entre alfinetadas ao mundo do entretenimento e da indústria — da disputa entre Netflix e Paramount pela Warner, às críticas ao Ministério da Justiça e referências ao caso Epstein. O tom ácido e, por vezes, meta-reflexivo do show reforça a noção de que prêmios cine/televisivos agora atuam como uma lente ampliadora das tensões culturais contemporâneas — um verdadeiro reframe da realidade.
Para além do glamour, a noite em Beverly Hills funcionou como mapa: traçou linhas de força entre comércio (bilheteria), memória cultural (Shakespeare reimaginado em Hamnet) e política de prestígio (a trajetória de DiCaprio e a visibilidade de nomes como Wagner Moura). Se o Oscar é o ato final do grande espetáculo industrial, esses momentos prévios são os ensaios onde se ajustam a luz e o som do que será contado — e quem, finalmente, levará a cena principal.






















