Por Marco Severini — A resposta do regime iraniano às recentes manifestações deve ser lida como um movimento pensado no âmago do poder, não como uma simples perda de controle. O uso sistemático e visível da violência funciona como uma mensagem estratégica com duplo destinatário: a sociedade e a própria máquina do Estado. Para entender o alcance desse gesto coercitivo é preciso mapear a tensão entre durabilidade do poder e fragilidades internas, e como essa tensão pode transformar repressão em catalisador de ruptura.
O quadro é conhecido: ruas de Teerã e outras cidades marcadas por vítimas e confrontos; uma economia em retração; isolamento diplomático crescente; e, ao fundo, a incógnita da sucessão do Aiatolá Khamenei. Neste cenário, a violência se impõe não apenas como instrumento de contenção, mas como sinalizador político. Ao classificar protestos persistentes e sociais como ameaça existencial, o regime desloca o conflito do domínio policial para o campo da luta pela sobrevivência do sistema. O efeito jurídico e retórico é imediato: protestantes deixam de ser súditos dissidentes para serem rotulados como inimigos internos ou mesmo “terroristas” — uma etiqueta que abre caminho para doutrinas mais duras de segurança.
Há, contudo, uma segunda camada — menos óbvia, porém decisiva. A demonstração de força é dirigida também para o interior do aparato: governadores, comandantes intermédios, forças de segurança e elites locais observam se a cadeia de comando permanece intacta. Em termos de estratégia de poder, a repressão serve como um aviso contra defeções. Ao mostrar que o centro está disposto a ir até o fim, o comando pretende preservar a coesão vertical. Mas este é um movimento de risco: ao elevar a temperatura da crise, a violência pode radicalizar protestos, corroer a legitimidade residual do regime e reduzir as alternativas políticas futuras.
Este é o paradoxo estratégico. No curto prazo, a dureza pode esfriar a praça e recompor uma aparência de ordem. No médio prazo, pode funcionar como boomerang: quando a repressão torna-se demasiado sanguinária, transforma mobilizações sociais em um movimento contra o próprio regime, acelerando fissuras internas e tornando a opção do colapso ou de uma transição gerida cada vez mais plausível.
O que aumentaria concretamente a probabilidade de ruptura? A conjunção de fatores é simples, mas perigosa: uma economia em espiral, sanções e isolamento que limitam os instrumentos de compensação política; uma contestação social transversal (mulheres, minorias, trabalhadores, estudantes); e sobretudo incertezas na linha de sucessão, que criam vagas de poder e incentivam jogos de influência dentro do aparelho. Numa arquitetura de poder tão centralizada, defeções de comandos intermédios ou cisões entre forças — em particular em relação ao Corpo da Guarda Revolucionária — poderiam acelerar um processo de desagregação.
As implicações regionais são tão relevantes quanto as domésticas. Um eventual colapso ou mesmo uma transição desordenada do Irã não seria um evento confinado; provocaria uma redistribuição de influências na chamada “tectônica de poder” do Médio Oriente. Grupos pró-Teerã, equilíbrios sectários, rotas de abastecimento e canais de encorajamento político poderiam ser redesenhados, com efeitos difíceis de conter e alto potencial de contagio para vizinhança instável.
Da perspectiva de um observador estratégico, a recomendação é a prudência ativa: monitorar sinais de fissura no aparelho, avaliar o comportamento das forças armadas e dos guardiões ideológicos, mapear as redes de solidariedade social e acompanhar as ofertas externas de apoio ou contenção. Em termos de diplomacia, a prioridade deve ser evitar intervenções que acelerem o ciclo de desagregação e, simultaneamente, preparar instrumentos de gestão de crise para um cenário de transição — seja ela ordenada ou abrupta.
Em termos de metáfora: estamos diante de um tabuleiro onde o centro tenta um movimento de demonstração de força — uma réplica ostensiva que pretende restaurar a hegemonia — mas que, por sua própria natureza, altera os alicerces da diplomacia interna e externa. Como num final de partida em que uma peça sacrificada muda a dinâmica, a violência pode reconfigurar fronteiras invisíveis de poder e acelerar um redesenho que poucos, até recentemente, ousavam considerar provável.





















