Por Marco Severini — A crise no Irã atravessa um ponto de inflexão. Em uma declaração pública no Truth, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos estão “prontos a ajudar os manifestantes” que, apesar do severo apagão de internet e de uma repressão crescente, voltaram às ruas pelo décimo quarto dia consecutivo. A mobilização, de alcance e intensidade inéditos nos últimos três anos, não dá sinais de arrefecer.
Fontes consultadas pelo Wall Street Journal relatam que membros da administração Trump mantiveram conversas preliminares sobre um eventual plano de ataque contra alvos no Irã. Entre as opções em discussão figura um ataque aéreo contra uma instalação de gás ou outros pontos do aparato militar iraniano. As mesmas fontes sublinham, porém, que não houve consenso sobre a linha de ação e que não há sinais de mobilização de tropas, equipamentos ou pessoal que indiquem uma operação iminente. Em termos clássicos de estratégia, tratam-se de movimentos no tabuleiro de planejamento — relevantes, mas não definitivos.
O governo iraniano respondeu elevando o nível de dureza: a retórica escalou ao ponto de classificar os insurgentes como “inimigos de Deus” e sugerir penas máximas, inclusive a forca, enquanto a figura do Aiatolá Ali Khamenei colocou o país em um estado de alerta ainda mais elevado do que o observado durante a guerra de doze dias com Israel, em junho de 2025. Essa combinação de repressão, censura e demonstração de força altera os alicerces da diplomacia regional e intensifica a tensão com o Ocidente.
Do lado europeu, houve um apelo conjunto para pôr fim à violência. A presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, propôs a imposição de sanções ao Corpo da Guarda Revolucionária — uma sinalização clara de que Bruxelas acompanha o desenrolar dos eventos e considera medidas punitivas.
No terreno, o cenário é sombrio. O apagão de internet já dura mais de 48 horas em várias províncias e o acesso à informação é limitado. Mensagens de texto supostamente enviadas pela polícia convocam a população a não participar das manifestações, enquanto relatos de violência se multiplicam. A ONG Human Rights Activists News Agency (HRANA) reportou ao menos 65 vítimas em uma das noites de protesto, das quais 49 seriam civis; outras contagens — incluindo relatos hospitalares sigilosos citados por Time — apontam números significativamente maiores, com até 217 feridos atendidos em seis hospitais de Teerã, muitos por ferimentos de munição real.
É necessário manter distinção entre o ruído retórico e as escolhas estratégicas efetivas. A discussão americana sobre opções militares, por um lado, funciona como um sinal dissuasório e como uma alavanca de pressão política; por outro, envolve custos e riscos que podem reconfigurar a tectônica de poder no Oriente Médio. O apoio declarado a manifestantes por parte de Washington — se efetivado — representa um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: é ao mesmo tempo um compromisso moral retórico e uma possível peça de pressão sobre o regime de Teerã.
Enquanto isso, a resistência popular segue impulsionada por uma narrativa de mudança que alguns analistas já classificam como revolucionária, destacando um sentimento de ruptura mais profundo do que nas mobilizações precedentes. A combinação de repressão interna, censura e a perspectiva de intervenções externas cria um quadro de elevada incerteza. Em termos de estratégia internacional, vivemos um momento em que cada gesto — das sanções às comunicações seguras dos manifestantes — pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.






















