Reza Ciro Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, reaparece no centro da cena política iraniana numa jogada que combina apelo popular e cálculo estratégico. Em resposta às manifestações que percorrem o país há semanas, Pahlavi anunciou estar “pronto a voltar ao Irã” para se unir às mobilizações e pediu ações coordenadas para minar o poder do regime.
Em um post em persa na plataforma X, o herdeiro declarou: “Vocês inspiraram a admiração do mundo com sua coragem e firmeza” e saudou as multidões nas ruas como uma resposta esmagadora às “ameaças do líder traidor e criminoso da República Islâmica”. Dirigindo-se diretamente aos manifestantes, afirmou que as imagens das ruas teriam feito o aiatolá Ali Khamenei “tremer em seu esconderijo”.
O tom do apelo não é apenas simbólico. Pahlavi pediu uma estratégia prática: uma presença nas ruas mais direcionada ao mesmo tempo em que se corta a sustentação financeira do regime. Reclamou a convocação de greves nacionais por trabalhadores e funcionários dos setores-chave — transporte, petróleo, gás e energia — como forma de paralisar o aparelho econômico que sustenta a República Islâmica.
Depois de um primeiro chamado a se manifestar nas ruas, que foi seguido por milhões e também por repressão violenta — com dezenas de mortos em confrontos — o príncipe estendeu o convite para manifestações contínuas, marcando cut-off para 10 e 11 de janeiro a partir das 18h. Mais além do protesto, Pahlavi falou em preparar forças para “conquistar e defender centros urbanos”, um chamado claro à ocupação persistente das praças e artérias das cidades.
Residente em Paris, onde vive sua mãe, a ex-rainha Farah Diba, Pahlavi já havia tentado, publicamente, esclarecer sua ambição: não restaurar a monarquia como regime, mas assumir o papel de garantidor de uma transição democrática capaz de reunir as diversas correntes da oposição iraniana — atualmente fragmentadas entre monarquistas, reformistas e conservadores.
Essa posição, entretanto, permanece divisiva. Dentro e fora do Irã há quem veja seu reaparecimento com desconfiança; observadores ressaltam a falta de uma liderança unificada da oposição e a dificuldade prática de concretizar um cenário pós-Republica Islâmica. A pergunta estratégica que paira sobre o tabuleiro é se a figura de Pahlavi consegue transformar capital simbólico em hegemonia política capaz de preencher o vácuo que eventualmente emergir.
Nos últimos meses, sobretudo após o confronto de junho — referido por analistas como a “guerra dos 12 dias” — em que altos comandos militares iranianos foram atingidos e instalações nucleares sofreram perdas, Pahlavi intensificou esforços para se posicionar como voz principal da dissidência. Seu objetivo declarado é retornar ao país quando a “revolução nacional” triunfar; ele afirma acreditar que esse dia está próximo.
Do ponto de vista geopolítico, a emergência de um ator com legitimidade histórica que promova uma saída não teocrática do regime representa uma possível reconfiguração das linhas de influência no Oriente Médio. É um movimento que não altera apenas o jogo interno, mas também as alianças regionais e a arquitetura de segurança que sustenta a estabilidade — frágil — da região.
Como um jogador num tabuleiro de xadrez, Pahlavi aposta em coordenar movimentos: mobilização popular nas praças, paralisação econômica estratégica e uma narrativa capaz de agregar forças diversas. Resta saber se essa combinação será suficiente para superar as estruturas do poder enraizadas há décadas e se o país terá — no pós-ruptura — alicerces institucionais capazes de assegurar uma transição pacífica e laica.
Reza Ciro Pahlavi permanece, portanto, uma figura tanto de potencial ponte quanto de acirramento: a sua volta prometida e seus convites ao país são lances decisivos num jogo de alta potência, cujo resultado tem implicações internas e externas profundas.
















