Gabriele D’Annunzio foi uma das figuras mais emblemáticas da Itália do início do século XX, combinando literatura, política e patriotismo de forma intensa e controversa. Poeta, escritor e fervoroso nacionalista, ele atuou como uma figura simbólica da Primeira Guerra Mundial, influenciando tanto a opinião pública quanto a moral das tropas por meio de suas palavras e ações diretas no campo militar.
Formação e trajetória literária
Nascido em 1863, em Pescara, D’Annunzio destacou-se desde cedo no mundo literário. Formado em letras, rapidamente ganhou notoriedade como poeta e romancista, tornando-se uma das vozes mais influentes do movimento decadentista italiano. Sua obra combinava paixão, estética refinada e nacionalismo, consolidando-o como um intelectual público capaz de mobilizar corações e mentes.
Além da literatura, D’Annunzio tinha grande interesse por política e estratégia militar, acreditando que a arte e o patriotismo poderiam convergir para fortalecer a Itália como nação.
Nacionalismo e a propaganda da guerra
Quando a Itália entrou na Primeira Guerra Mundial, D’Annunzio assumiu um papel ativo na mobilização patriótica. Ele não apenas apoiou publicamente a intervenção militar, mas também participou de missões perigosas junto às tropas, tornando-se um símbolo da coragem e do fervor nacionalista.
Seus discursos, artigos e poemas foram utilizados como ferramentas de propaganda, incentivando a população e os soldados a encarar o conflito como uma oportunidade histórica para a afirmação da Itália no cenário internacional.
Missões militares e liderança simbólica
Entre suas ações mais conhecidas está o “Volo su Vienna” (Voo sobre Viena), uma missão ousada em 1918, quando D’Annunzio e seu esquadrão de aviadores lançaram panfletos sobre a capital austro-húngara. A operação, mais simbólica do que militarmente decisiva, destacou sua habilidade em unir teatro, propaganda e ação direta, reforçando sua imagem de herói nacional.
Além disso, D’Annunzio participou de outras iniciativas militares, sempre mantendo sua postura de intelectual-engajado, capaz de inspirar através das palavras e da presença.
Gabriele D’Annunzio e suas mulheres: Entre musas e paixões
Dizer exatamente quantas mulheres fizeram parte da vida de Gabriele D’Annunzio é impossível. Alguns estudiosos chegaram a contar 140, mas esse número tem pouco significado, pois é preciso distinguir entre as musas, que inspiraram sua poesia, e aquelas que simplesmente fizeram parte de seu “harém”, atendendo ao seu erotismo intenso e desenfreado.
O livro “Femmine e Muse Dannunziane”, publicado em 1993 pelo estudioso Ivanos Ciani, representa uma longa pesquisa sobre o tema. Ciani deixou claro que as mulheres incluídas na obra não correspondem a todas que D’Annunzio conheceu, mas apenas àquelas de cuja documentação fotográfica foi possível localizar registros. Além disso, nem todas foram realmente “dele” no sentido de terem entrado em seu harém.
Entre os casos menos conhecidos está a savonense Lilia Maria Lilium, que em 1919 viajou a Veneza em busca de um encontro com o poeta, numa esperança que talvez tenha se frustrado. Já as profissionais do amor que D’Annunzio não rejeitou em Veneza, Fiume, Paris e Gardone Riviera nos últimos três decênios de sua vida permanecem em grande parte sem registro visual ou detalhado.
As grandes musas de D’Annunzio são mais conhecidas. Entre elas:
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Sua esposa, a duquesa Maria Hardouin di Gallese, mãe de três filhos, que ele abandonou;
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A condessa siciliana Maria Gravina Cruyllas di Ramacca, com quem teve uma filha reconhecida, Renata — a “Sirenetta” do Notturno — e possivelmente outro filho não reconhecido;
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Elvira Fraternali Leoni, conhecida como Barbarella;
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A atriz Eleonora Duse, famosa por suas “belas mãos”;
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A marchesa Alessandra Starabba di Rudinì Carlotti, filha de um ex-primeiro-ministro, que terminou seus dias em um convento;
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As contessas Nathalie de Goloubeff e Giuseppina Mancini;
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A pianista Luisa Baccara, que esteve próxima de D’Annunzio nos últimos 25 anos de sua vida, de Fiume até sua morte no Vittoriale em 1938;
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E outras figuras menos conhecidas, incluindo sua governante e criada francesa, Aélis Mazoyer, cuja relação durou talvez três décadas.
O estudo de Ciani confirma que uma das qualidades mais notáveis de D’Annunzio era sua vitalidade extrema. Ele era um verdadeiro Don Giovanni de alcance internacional: poeta, condottiero em Fiume e herói da Grande Guerra.
Quanto à pergunta inevitável o que D’Annunzio fazia para atrair tantas mulheres e por que elas se jogavam aos seus pés? a resposta está no cortejo poético e no poder simbólico dos presentes. Muitas ele literalmente “comprava”. As outras as mais influentes, incluindo contessas, baronesas, princesas, marquesas (como Coré, que despertava emoções sensuais, e Casati Stampa) e dançarinas mundialmente conhecidas, como Ida Rubinstein eram conquistadas por ele com seu charme literário, através de cartas, flores e gestos de poeta, mesmo sem ser considerado particularmente belo.
D’Annunzio, portanto, permanece como um personagem complexo: artista, sedutor, herói e provocador, cuja vida amorosa espelha sua intensa energia vital e seu caráter de figura icônica do nacionalismo e da cultura italiana do início do século XX.
Legado histórico e cultural
Gabriele D’Annunzio permanece como uma figura complexa: poeta e escritor de talento inegável, propagandista fervoroso e símbolo do nacionalismo italiano durante a Grande Guerra. Sua influência ultrapassou a literatura, moldando a percepção pública sobre a guerra e deixando um legado que combinava estética, política e heroísmo.
Apesar das controvérsias e críticas especialmente sobre o uso da guerra como palco para autopromoção — D’Annunzio simboliza o poder da cultura e da retórica na mobilização de um país em tempos de crise.






















