Em entrevista marcada por reflexões que atravessam palco, tela e sociedade, Toni Servillo, 66 anos, discorre sobre La grazia, o novo filme de Paolo Sorrentino no qual interpreta Mariano De Santis, um Presidente da República de formação católica e de sólida integridade moral. Premiado com a Coppa Volpi em Veneza, o filme chega às salas em 15 de janeiro após uma série de pré-estreias.
Servillo descreve o seu personagem como alguém que enfrenta decisões cruciais nos meses finais de um mandato — a concessão de duas graças e a assinatura de uma lei sobre o fim de vida. Sobre a questão da eutanásia, o ator afirma: “O nosso país dá três passos em frente e dois para trás. Toda nação civil deveria ter uma lei que permita que quem sofre se vá de forma digna, autônoma e com o menor sofrimento possível.” É um posicionamento que transforma a tela num campo de debate moral e político — o cinema como um roteiro oculto da sociedade.
Quanto às premiações, Servillo recorda que no dia 17 é candidato aos Prémios Europeus: “Irei a Berlim e, no dia seguinte, estreio teatro em Pádua — encaro isso como um presságio.” Ele reconhece o forte concorrente Stellan Skarsgård, protagonista de Sentimental Value, e admite que talvez o colega tenha mais chances.
Ao analisar o panorama europeu, Servillo traça um contraste: “A Europa política está perdida; a Europa cultural, porém, ainda existe.” Ele insiste que a Itália precisa reconhecer que sua contribuição maior é a cultura — que deve ser vista como investimento e não mero gasto. Aqui o ator toca numa ferida contemporânea: a tensão entre mercado e estado no financiamento das artes. “O cinema, por si só, nada pode; precisamos de políticos sensíveis. Tomara que haja uma revolta das camadas mais iluminadas para restaurar um pouco de civilidade.”
Sobre o equilibrio do personagem entre credibilidade institucional e carga emocional, Servillo explica que a emotividade brota do semestre branco — os últimos seis meses do mandato — e do delicado vínculo com a filha (vivida por Anna Ferzetti), que encarna o presente. É nesse entrelace de esfera pública e privada que o filme encontra a sua pulsação dramática.
O artista também comenta a situação dos teatros e óperas, ameaçados por cortes e reformas. Reivindica que administradores e políticos saibam reconhecer a qualidade e fomentem novos talentos. “Quando comecei no teatro, sem o apoio do Estado e da sensibilidade do Comune di Napoli, talvez eu tivesse parado antes. Tive a oportunidade de não me atirar nas garras do mercado.” A lembrança é uma fotografia íntima: Servillo cresceu em Caserta, “numa casa sem livros”, e descreve a própria trajetória como um milagre — um percurso que ressoa como um fio narrativo da mobilidade cultural italiana.
Apesar de uma educação familiar sem literaturas abundantes, ele confessou apreço pela poesia — nomes como Giorgio Caproni, Giovanni Giudici e Attilio Bertolucci —, algo que amortece sua propensão à prosa pesada e dá ritmo à sua dicção no palco e na tela.
Surpreendentemente leve sobre o entretenimento popular, Servillo não se furta a comentar Checco Zalone: “Me diverte. Que venham os filmes que encham as salas, mesmo que eu ainda não o tenha visto.” É uma defesa elegante do cinema como espetáculo coletivo — uma economia da sala escura que, afinal, sustenta a vitalidade cultural. O comentário recupera a ideia de que o sucesso de bilheteria também é parte do mosaico cultural: o público lotando as cadeiras é, em si, um índice de saúde do cinema.
Servillo, com sua fala medida e imagem de rigor, não é apenas um ator premiado: é um observador do tempo. Suas palavras assumem o cinema como espelho do nosso tempo e a cultura como o reframe necessário para entender os desequilíbrios políticos e sociais que nos atravessam.




















