Lorella Cuccarini desembarca em Bergamo como uma presença que une memória e contemporaneidade: aos 60 anos, a artista italiana reafirma seu estatuto de ícone televisivo e teatral participando como special guest do clássico Aggiungi un posto a tavola, em cartaz na ChorusLife Arena nos dias 16 (21h), 17 (16h e 21h) e 18 de janeiro (16h).
Na montagem inspirada livremente no romance Dopo di me il diluvio de David Forrest, Cuccarini interpreta Consolazione, uma personagem desenhada como uma figura cômica e carismática que, paradoxalmente, guarda um profundo anseio de afeto. Como ela mesma explica, essa busca por amor é o ponto de contato entre atriz e papel: “Consolazione é provavelmente um dos personagens que sinto mais distantes de mim, sobretudo pela construção cênica: nasce como uma figura declaradamente cómica, uma caracterista. O único verdadeiro ponto de contato é talvez o seu profundo bisogno d’amore”.
O espetáculo acompanha o padre Don Silvestro (interpretado por Giovanni Scifoni), incumbido por uma voz que vem do alto — a do veterano Enzo Garinei — de construir uma nova arca para salvar a comunidade de um segundo dilúvio. Na narrativa, o prefeito Crispino (Marco Simeoli) encarna o antagonista ávido, enquanto personagens como Consolazione acabam por dar espessura emocional ao enredo e a seu título, que evoca acolhimento e renovação.
Sobre a longevidade da peça, Cuccarini aponta para sua qualidade atemporal: “É uma fábula extraordinária, capaz de falar a todos. A cinquenta anos mantém intacta sua vitalidade; não precisa de releituras porque os temas são profundos e atemporais. Mesmo daqui a cinquenta anos continuará a ser contada e compartilhada”. Essa capacidade de atravessar gerações é, nas palavras dela, o verdadeiro segredo do sucesso: um roteiro que funciona como um espelho do nosso tempo, mas também como um roteiro oculto da sociedade — simples, humano e universal.
Em entrevista que assume tom de conversa entre amigos — o que é a marca de quem conhece os palcos e a intimidade pública —, Lorella fala também da vida pessoal. Questionada sobre a família, disse: “Meus filhos? À sua maneira, todos têm uma veia artística”. E, ao comentar sobre sua forma física aos 60 anos, não recorre a slogans: atribui o vitalidade ao legado familiar e à disciplina: “é mérito dos meus pais e da disciplina”. Uma afirmação que remete ao valor do hábito e da educação como elementos constitutivos da carreira de artista.
O encontro com o grande público e com os produtores que a lançaram aconteceu, curiosamente, em um cenário banal e quase cinematográfico: uma convenção da Algida, onde ela era bailarina de fila e Pippo Baudo era o apresentador do evento. “Ele me notou durante a serata e quis me conhecer — foi um encontro muito profissional. Eu estava intimidada, mas ele me pôs logo à vontade”, recorda. A anedota funciona como um pequeno refrão biográfico: as carreiras, muitas vezes, se iniciam com olhares e profissionalismo em eventos que parecem efêmeros, mas que reescrevem trajetórias.
Assistir a Aggiungi un posto a tavola com Lorella Cuccarini em cena é, portanto, mais do que ver uma atriz em um papel: é observar o reframe de uma artista que atravessou décadas de televisão e teatro, carregando consigo a semiótica do popular e o eco cultural de um tempo. Consolazione, no palco, aparece como uma possibilidade de redenção e de nova ordem; fora dele, a própria presença de Cuccarini funciona como um lembrete de que a carreira artística é também um exercício de disciplina, memória e reinvenção.
Datas e local: Aggiungi un posto a tavola — ChorusLife Arena, Bergamo. Sexta 16/01 às 21h; Sábado 17/01 às 16h e 21h; Domingo 18/01 às 16h.
Curiosidade sofisticada: ver Cuccarini hoje é perceber como o entretenimento pode ser um espelho do nosso tempo — e, ao mesmo tempo, um antídoto contra a efemeridade. Seu corpo de trabalho funciona como um roteiro tácito que atravessa a memória coletiva italiana e ressoa nas plateias contemporâneas.















