Por Marco Severini — A República Islâmica do Irã viveu mais uma noite de tensão, com manifestações dispersas por várias cidades e uma resposta estatal marcada pela repressão e pelo controle de informação. O quadro se insere numa fase em que vozes internas e externas atuam como peças num mesmo tabuleiro: do apelo à responsabilidade popular às declarações de líderes estrangeiros, cada movimento redesenha, de forma sutil, a tectônica de poder na região.
Segundo relatórios de observadores e organizações de monitoramento, o país permanece sob um blackout de internet de âmbito nacional há mais de 36 horas, uma medida que restringe severamente a capacidade dos iranianos de checar a segurança de familiares e comunicar-se com o exterior. A organização Netblocks documentou a queda generalizada do tráfego digital, que coincide com os picos de repressão nas ruas.
Em Teerã, as Guardas Revolucionárias emitiram um comunicado reafirmando que a salvaguarda dos resultados da Revolução Islâmica de 1979 constitui uma “linha vermelha” a ser protegida. A declaração, conforme retransmitida pela televisão estatal, procura assinalar estabilidade institucional e autoridade, ao mesmo tempo em que justifica ações de contenção contra o que o regime descreve como ameaças internas e externas.
No plano internacional, o cenário ganhou contornos semelhantes a um lance decisivo no tabuleiro quando o primeiro‑ministro israelense, Benyamin Netanyahu, concedeu entrevistas em que delineou avaliações duras sobre o Irã e antecipou uma progressiva autonomia militar e financeira de Israel: afirmou que, se for atacado pelo Irã, haverá “consequências terríveis”. Netanyahu também declarou sua intenção de reduzir a dependência dos subsídios de segurança dos Estados Unidos ao longo da próxima década, justificando‑o com o crescimento das capacidades nacionais e das perspectivas econômicas — ele projeta uma economia que se aproximaria do patamar de um trilhão de dólares dentro de dez anos.
Na mesma entrevista, o premiê evitou responder com detalhes sobre a expansão dos assentamentos e as denúncias de violência por parte de colonos; defendeu as operações do IDF em Gaza como conformes a “normas morais” e rejeitou acusações de crimes de guerra. Netanyahu também admitiu que é necessário permitir maior presença de jornalistas em Gaza, ao mesmo tempo em que criticou a cobertura internacional que considera tendenciosa.
Do lado diplomático iraniano, o embaixador junto às Nações Unidas, Saeed Iravani, encaminhou uma carta ao Conselho de Segurança atribuindo aos Estados Unidos responsabilidade pela escalada das manifestações pacíficas para episódios de violência — relato divulgado pela agência Tasnim. Paralelamente, nas sombras desse confronto retórico, o guia supremo Ali Khamenei dirigiu palavras públicas numa linha de desafiadora reciprocidade com Donald Trump, exortando‑o a “ocupar‑se dos problemas dos EUA” — um reflexo do jogo simbólico entre potências.
Esta confluência de acontecimentos — protestos domésticos, interrupção massiva da internet, declarações assertivas de atores regionais e recrudescimento da retórica diplomática — compõe um momento delicado. Como num lance de xadrez, cada movimento busca consolidar posição estratégica: o governo iraniano procura restaurar a ordem e a legitimidade, as Guardas Revolucionárias reasseguram a linha vermelha da revolução, Israel projeta autonomia e oferecimento de dissuasão, e atores externos observam o mapa buscando oportunidades e limites.
Na fratura entre estabilidade e convulsão, permanece a pergunta sobre quem, afinal, detém os alicerces da decisão: o poder central, as corporações de segurança, a sociedade civil ou as influências externas. A resposta será determinada tanto pelas ações nas ruas quanto pelos desdobramentos diplomáticos que se seguirão nas próximas semanas.





















