Em um movimento que redesenha, ainda que sutilmente, linhas de influência no extremo norte do mapa estratégico, os primeiros-ministros e chanceleres de três potências europeias propuseram ontem um reforço da presença da OTAN no Ártico. Em uma conversa telefônica entre o primeiro‑ministro britânico Keir Starmer, o presidente francês Emmanuel Macron e o chanceler alemão Friedrich Merz, os líderes concordaram que é necessário aumentar a projeção aliada na região para desencorajar a Rússia, segundo nota divulgada por Downing Street.
O encontro remoto decorreu na esteira da reunião da chamada coalizão dos voluntariosos realizada em Paris no dia 6 de janeiro. No comunicado oficial foi destacado que os três chefes de governo iniciaram o diálogo celebrando a forte unidade demonstrada em apoio à Ucrânia e os progressos nas medidas subsequentes. De acordo com a nota, os líderes qualificaram como “inaceitável” a escalada dos ataques russos na Ucrânia, citando explicitamente o emprego de um míssil balístico de médio alcance, o chamado Oreshnik, na manhã dirigida à Ucrânia ocidental.
Starmer, em particular, sublinhou que a Rússia parece pautar-se por acusações fabricadas para justificar ações ofensivas, uma narrativa que reforça a necessidade de coesão e dissuasão aliada. A proposta de fortalecer a presença da OTAN no Ártico visa, nas palavras dos líderes, aumentar a capacidade de prevenção e reduzir o risco de novas escaladas — um movimento que, sob a ótica da Realpolitik, procura estabilizar o tabuleiro antes que uma peça adversária faça um movimento decisivo.
Paralelamente às declarações oficiais, o jornal dinamarquês Nos revelou que a Aliança estaria considerando a criação de uma missão especial conjunta na Groenlândia. Segundo a reportagem, a iniciativa teria também um objetivo tático de acalmar tensões com o ex-presidente Donald Trump — uma leitura que mistura diplomacia pública e cálculo interno de alianças. Fontes presentes na reunião semanal dos 32 embaixadores da Aliança teriam manifestado o apoio unânime a um papel mais incisivo da OTAN no Ártico, sugerindo que uma missão sob bandeira aliada, envolvendo especialmente os Estados Unidos, reforçaria substancialmente a defesa regional.
Do ponto de vista estratégico, a potencial operação conjunta na Groenlândia toca alicerces sensíveis da cartografia de influência no Atlântico Norte: instalações logísticas, rotas aéreas e marítimas e pontos avançados para vigilância e projeção de poder. Não se trata apenas de posicionar meios, mas de estabelecer uma arquitetura de dissuasão que recomponha as margens de segurança sem provocar necessariamente uma escalada direta — uma medida pensada como resposta preventiva e coordenada.
Como analista que privilegia a calma e a visão de longo prazo, observo que a iniciativa demonstra dois vetores claros: (1) o reconhecimento de que as ameaças contemporâneas ultrapassam fronteiras convencionais e demandam respostas conjuntas; e (2) a busca por mecanismos que preservem a unidade transatlântica num momento em que pressões internas e externas testam a coesão do bloco. Em termos de tabuleiro, é um reforço de peças defensivas na ala norte para impedir que a iniciativa mude de lado.
Resta observar como Moscou interpretará o movimento — se como mera prudência defensiva ou como provocação — e até que ponto os aliados estão dispostos a transformar o planejamento em presença física e permanente. A diplomacia deverá trabalhar sobre pilares frágeis: conciliação entre aliados com prioridades divergentes, comunicação estratégica para evitar mal-entendidos e, sobretudo, coordenação operacional com os Estados Unidos.
Em suma, a proposta de reforçar a presença da OTAN no Ártico representa um redesenho sutil, porém significativo, de fronteiras invisíveis de poder. A manobra procura antecipar-se a riscos crescentes, preservando a estabilidade através de uma arquitetura coletiva. No tabuleiro global, é um movimento cauteloso, mas decisivo.






















