Por Giuseppe Borgo — La Via Italia
Com a caneta que pesa nas estruturas do poder europeu, Giorgia Meloni assinou o acordo comercial entre a União Europeia e o bloco Mercosur, abrindo caminho para a formalização de um tratado que vinha sendo negociado por 25 anos. A decisão italiana, tomada durante a reunião dos representantes permanentes em Bruxelas (o Coreper), foi determinante para que o processo avançasse: com o voto favorável da Itália foi atingida a maioria qualificada necessária, a chamada maioria dos 65% da população de pelo menos 15 Estados-membros.
O desgaste, porém, é óbvio nas ruas: enquanto os diplomatas selavam o passo administrativo em Bruxelas, agricultores e agricultores organizados ocupavam as praças. Em Milão, produtores protestaram sob a bandeira de Riscatto Agricolo Lombardia e do Coordinamento Agricoltori e Pescatori Italiani (Coapi); tratores bloquearam vias também na França, na Espanha e em outros países europeus para sinalizar o descontentamento com um acordo que, dizem, ameaça os alicerces da atividade rural local.
Na votação do Coreper, França, Hungria, Irlanda, Polônia e Áustria optaram por não assumir a responsabilidade política e votaram contra; a Bélgica absteve-se. A posição italiana, em contrapartida, foi decisiva. O governo de Meloni, pressionado por reivindicações de reciprocidade dos produtores e pela proximidade com a Coldiretti, também levou em conta as demandas da Confindustria, interessada em abrir mercados, e a estratégia geopolítica da Comissão Europeia, que busca alternativas comerciais perante a instabilidade das políticas externas dos Estados Unidos.
A assinatura italiana, além de neutralizar o posicionamento do presidente francês Emmanuel Macron, marca uma operação política que o governo descreve como uma mediação pragmática entre interesses divergentes — indústria, agricultura e geopolítica. Mas essa mediação tem preço: quando muitos interesses estão em jogo, reconhecem fontes do governo, há sempre o risco de que partes do tecido social saiam fragilizadas. Para os agricultores, essa conta ainda não fechou.
Organizações agrícolas europeias, representadas por Copa e Cogeca, mantêm-se unânimes em criticar o acordo, qualificando-o como desequilibrado e incompleto, mesmo após a introdução de medidas adicionais de salvaguarda. Enquanto isso, o vice-primeiro-ministro polonês anunciou intenção de recorrer ao Tribunal de Justiça da União Europeia contra a ratificação do tratado.
Meloni evita festejos e apressa-se a justificar a decisão: segundo a primeira-ministra, nunca houve uma objeção ideológica ao Mercosur, mas sim uma análise pragmática sobre como equilibrar regulação interna e abertura externa. A chancela de Ursula von der Leyen e a busca por contrapesos comerciais no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai foram elementos relevantes nesse cálculo.
O futuro dirá se os acréscimos negociados são suficientes para proteger os produtores europeus ou se as garantias ficarão aquém do necessário. No plano político, a decisão italiana reforça a imagem de Roma como um pilar que pode alterar o equilíbrio nas negociações comunitárias — uma parede mestra ergue-se ou se torna fissurada dependendo dos próximos passos legislativos e judiciais.
Enquanto isso, a construção das regras que vão reger o comércio entre continentes segue em curso, mas com diversas peças ainda soltas. Cabe aos cidadãos, aos produtores e às entidades representativas acompanhar com atenção cada ato, cada salvaguarda e cada cláusula: são os alicerces da lei comercial que definirão quem realmente ganha e quem arcará com os custos.






















