As manifestações no Irã contra o aumento do custo de vida, que já se estendem por doze dias, ameaçam transformar uma crise interna em um novo ponto de atrito entre a República Islâmica e seus principais adversários internacionais, notadamente os Estados Unidos e Israel. Em um discurso à nação, a Guia Suprema, aiatolá Ali Khamenei, atacou frontalmente a administração de Donald Trump, acusando Washington e Tel Aviv de instigar os manifestantes e sugerindo que intervenções externas tentam capitalizar a turbulência.
Na fala, Khamenei recomendou que o presidente americano se ocupe dos problemas internos dos EUA e classificou parte dos manifestantes como agentes que “buscam agradar a Trump” ao destruir bens públicos. Em tom historicamente carregado, o líder iraniano equiparou líderes arrogantes do presente a figuras míticas e históricas — como o Faraó e Nimrod — e citou também personagens da história iraniana para antecipar o destino de governantes excessivamente confiantes. Khamenei disse ainda que o presidente dos EUA é um “arrogante” e que acabará sendo “derrocado” como outros tiranos no auge de seu poder.
Ao mesmo tempo, a Guia Suprema deixou clara sua recusa em ceder sob pressão externa: o Irã, afirmou, “não recuará um milímetro” de seus princípios. O tom do pronunciamento configura não apenas uma resposta retórica às declarações estrangeiras, mas também um posicionamento estratégico — uma mensagem dirigida tanto ao público doméstico quanto aos atores regionais e globais, buscando consolidar a narrativa do regime diante de uma crise em expansão.
Preocupadas com o aumento das tensões, potências e companhias aéreas adotaram medidas de precaução. A Turkish Airlines cancelou cinco voos previstos para Teerã na sexta-feira. Além disso, cinco voos operados por companhias aéreas iranianas foram igualmente cancelados, enquanto outros sete permaneceram em operação, segundo levantamento do site FlightRadar. Na noite de quinta-feira, um avião da Turkish Airlines com destino a Shiraz e um voo da companhia turca Pegasus com destino a Mashhad retornaram após entrarem no espaço aéreo iraniano — uma manobra que, segundo a mídia turca, teve caráter cautelar diante das manifestações esperadas após as orações de sexta-feira.
O cenário desenhado é de elevada tensão: a combinação de protestos persistentes, intervenção retórica de lideranças estrangeiras e precauções de transporte aponta para uma tectônica de poder instável, em que pequenos movimentos no tabuleiro podem provocar deslocamentos maiores na política regional. A retórica de Khamenei e as medidas de companhias aéreas são, em conjunto, sinais de que Teerã busca manter o controle interno e dissuadir interferências externas sem necessariamente escalar imediatamente para um confronto direto.
Do ponto de vista geopolítico, acompanhamos um momento em que a arquitetura das alianças e as fronteiras da influência são testadas — uma jogada de xadrez em que atores locais e globais medem riscos e oportunidades. A trajetória das próximas horas, especialmente as reações internacionais e o curso das manifestações após as orações de sexta-feira, será determinante para entender se a crise será contida internamente ou se abrirá um novo capítulo de confrontos regionais.






















