Por Alessandro Vittorio Romano — Em cada viagem de avião existe um ritmo visível: malas, filas, o zumbido do motor e o anúncio do comissário. Mas, por trás desse compasso, existe também um pulso invisível que afeta o nosso bem-estar: a poluição aeroportuária. Um estudo da Université Paris Cité, publicado na revista Environmental International, identificou picos de partículas ultrafinas (UFP) e de carbono negro (BC) dentro das cabines — especialmente nas fases de embarque, rullagem e aterrissagem.
Os pesquisadores analisaram a qualidade do ar em 16 voos que partiram do movimentado aeroporto de Paris Charles de Gaulle. O quadro que emergiu lembra os ciclos da natureza: durante o voo, o ar dentro da cabine é progressivamente renovado e os níveis de poluentes voltam à norma — como o respiro da paisagem após a chuva. Mas os valores sobem novamente à aproximação do solo, possivelmente porque o vento traz para as pistas partículas geradas pelas atividades aeroportuárias e pelos motores.
O carbono negro, essa fuligem fina que é marcador das combustões, também alcança seus máximos nas proximidades dos aeroportos. Em suma, não é só o céu que transporta gente: o ambiente ao redor das pistas transporta partículas que entram na cabine nos momentos de maior proximidade com o solo.
Em paralelo, reportagens como a do The Guardian lembram que as emissões de CO2 da aviação poderiam ser reduzidas sem frear viagens: medidas como eliminar os assentos premium, aumentar a ocupação média dos voos e usar aeronaves mais eficientes podem, juntas, cortar até metade das emissões por passageiro. Embora o consumo de combustível por quilômetro tenha melhorado com o tempo, o aumento do número de voos tem anulado esses ganhos; especialistas estimam que as emissões de aviação podem dobrar ou até triplicar até 2050 se nada mudar.
O estudo também aponta diferenças regionais de eficiência: voos mais poluentes se concentraram em aeroportos dos Estados Unidos e da Austrália — sobretudo os menores — e em partes da África e do Oriente Médio. Já Índia, Brasil e o Sudeste Asiático mostraram, na média, voos menos poluentes. Entre os exemplos extremos, Atlanta e Nova York aparecem entre os piores em eficiência, quase 50% menos eficientes que Aeroportos como Abu Dhabi e Madrid.
Como guardião sensível da relação entre ambiente e saúde, convido você a observar esses fenômenos como parte do tempo interno do corpo em viagem: pequenas exposições que, somadas, compõem uma colheita de hábitos — e que merecem nossa atenção na hora de planejar deslocamentos e políticas públicas.
Para viajantes, a mensagem é dupla: a bordo, há períodos de ar mais limpo; nos aeroportos, convém cuidar de quem passa longos períodos nas proximidades das pistas. Para planejadores e empresas, há caminhos práticos — desde a operação de frota até a configuração de assentos — capazes de reduzir a pegada climática sem cortar as asas do transporte aéreo.






















