Da mesma forma que os grandes eixos urbanos organizam o fluxo de pessoas, o CES 2026 desenha, em Las Vegas, o mapa de prioridades da indústria tecnológica global. Em sua 59ª edição, o Consumer Electronics Show acontece entre 6 e 9 de janeiro e volta a ser uma vitrine onde se cruzam cadeias industriais, investimentos e estratégias de produto.
Organizado pela Consumer Technology Association (CTA), o evento é difundido por toda a cidade: são 13 locais de exposição, mais de 240 mil metros quadrados de área líquida, milhares de expositores e mais de 3.600 candidaturas aos Innovation Awards. No front das conferências, a CTA anuncia mais de 400 sessões e mais de 1.300 palestrantes, dimensões que transformam o salão em uma plataforma de agenda pública e industrial. Em 2025, o CES recebeu mais de 142 mil participantes — um indicador claro da escala do evento.
O denominador comum, repete-se, será a inteligência artificial. Ela aparece embutida em computadores, televisores, eletrodomésticos, veículos, soluções de smart home e wearables. Mas, como acontece nas grandes infraestruturas, o que determina a utilidade real não é apenas a presença de camadas de inteligência, e sim a sua integração prática: tempos de resposta, autonomia, assistência efetiva e interoperabilidade entre dispositivos.
No conjunto de produtos, o bloco mais denso continua sendo o de PCs e laptops, onde convergem chips, autonomia e a tendência do AI on-device. A feira chega com lançamentos planejados para virar base das linhas de produto de 2026: a Intel faz a “global launch” dos Core Ultra Series 3 (Panther Lake) durante os dias do CES, posicionando a família como alicerce para fabricantes de notebooks. A AMD, por meio do keynote de Lisa Su, aposta numa narrativa do cloud ao device, enfatizando plataformas que entreguem eficiência e capacidade local. A Qualcomm, por sua vez, consolida a família Snapdragon X em portáteis com foco em autonomia e integração, mantendo a mensagem de funções de IA cada vez mais distribuídas no dispositivo.
A verificação concreta virá na performance medida: velocidade real, autonomia de bateria e preço final ao consumidor — ou seja, os parâmetros físicos e econômicos que sustentam promessas de software. É uma observação que remete ao princípio da engenharia: modelos e algoritmos podem evoluir numa cadência exponencial, mas energia e hardware obedecem à física.
Analistas confirmam essa tensão. Thomas Husson, da Forrester, prevê que o divórcio entre o hype da IA e as expectativas reais dos consumidores crescerá no CES 2026. “Se software e modelos de IA evoluem à velocidade da luz, energia e hardware evoluem à velocidade da física”, diz Husson — uma metáfora útil para lembrar que o sistema nervoso das cidades precisa de fonte elétrica e infraestruturas reais. Avi Greengart, da Techsponential, alerta para o AI washing, o uso mercadológico inflacionado do termo, mas sinaliza que haverão funções concretas habilitadas por avanços em machine learning, aplicáveis a telefones, televisores, saúde digital e automotivo.
No segmento das televisões e do living, o CES permanece um campo de batalha entre painéis e software: tecnologias de display, processamento de imagem e serviços conectados recebem reforço por funções de IA que visam melhorar qualidade visual, personalização de conteúdo e eficiência energética. A smart home, por sua vez, tende a se mover em duas frentes complementares: maior integração e automação entre dispositivos (interoperabilidade) e foco em eficiência energética e segurança, temas que transformam dispositivos domésticos em nós de uma rede urbana maior — os alicerces digitais do cotidiano.
Em suma, o que se espera de Las Vegas é menos show de fantasia e mais aferição: quais recursos de IA se transformam em medições objetivas de benefício (tempo, autonomia, custo) e quais ficam no campo do marketing. Para o público europeu e italiano, a leitura prática é direta: observe a integração, a eficiência energética e os cenários de privacidade — os verdadeiros indicadores de maturidade tecnológica.































