Bandabardò, a banda folk-rock nascida em Florença em 1993, celebra os 25 anos do emblemático álbum ao vivo Se mi rilasso… collasso. O disco, que virou um verdadeiro lema para a banda — e para sua torcida — ganha uma edição inédita em duplo vinil e será comemorado com uma turnê que parte em março. Mais que nostalgia, a iniciativa repropõe a discografia como espelho do nosso tempo e reafirma o papel do grupo como um roteiro coletivo de resistência cultural.
O título que virou um “grito de batalha e de alegria, além de lema familiar” não é, como muitos supõem, o nome de uma faixa: a canção que contém a expressão chama-se “Beppeanna”. A origem da frase, conta Alessandro “Finaz” Finazzo — guitarrista e voz atual do grupo — vem de uma imagem de bastidores: um amigo, encharcado de suor após um dos primeiros shows, resumiu ali seu estado com um seco «se mi rilasso collasso». Enrico anotou aquilo num bloco de notas; a expressão ficou.
Enrico Greppi — o eterno Erriquez, cofundador e frontman histórico — faleceu em 2021 após longa doença. O grupo atravessou um período de transição que contou com Cisco na voz, “que nos trouxe e nos conduziu no momento mais difícil da nossa vida”, lembra Finaz. Hoje a banda segue sob sua liderança: “Nunca houve a vontade de substituir o Enrico por alguém; a banda é uma família, um projeto coral que segue entre alegrias, dores, vitórias e lutos, e que ainda tem muito a dar.”
A presença de Erriquez, defunto, permanece como um eixo invisível nos shows: “Desde que voltamos a tocar, não há noite em que não o sintamos ao nosso lado. No palco quase o vejo olhar, sorrir e me dizer ‘canta’. Ele disse: ‘io mi assento un attimo, ma tu fai che la musica della banda continui’. Éramos unidos por um pacto de sangue.” Essa relação entre memória e performance transforma cada concerto num cenário de transformação — não apenas entretenimento, mas reativação da coletividade.
Finaz é claro ao dissociar o giro comemorativo de um simples resgate nostálgico: “Ir a um show nosso interessa muito também a jovens”, observa, citando as plateias de Fandango — o disco mais recente — onde gente mais nova foi atraída, muitas vezes, por laços familiares, e saiu conquistada, fazendo fila para cumprimentar e agradecer. A comunidade de fãs da Bandabardò distingue-se por um laço orgânico: os duetos e colaborações que fizeram parte da trajetória foram fruto de admiração mútua, não de estratégia de mercado.
O viés político e participativo sempre foi marca do grupo: “Somos de uma geração que fez centenas de concertos gratuitos para amplificar a voz do povo”, diz Finaz. Em setembro, “felizes por ver a Itália nas ruas por Gaza”, perceberam um retorno da determinação cívica, ainda que o grande tumulto tenha esmorecido. Como analista otimista do zeitgeist, Finaz deposita esperança nos jovens: “São interessantes musical e socialmente”.
Celebrar 25 anos de um disco ao vivo como Se mi rilasso… collasso é também revisitar o roteiro oculto da própria história da banda — uma narrativa em que memória, política e festa se entrelaçam. A nova edição em vinil e a turnê não só reentram na cronologia da banda; eles reativam uma comunidade que continua a cantar, protestar e se reconhecer no espelho da música.































