Por Marco Severini — Com a calma de quem observa movimentos decisivos no tabuleiro da história, registro o falecimento de Eva Schloss Geiringer, sobrevivente do Holocausto e irmã de criação de Anne Frank, aos 96 anos em Londres. Sua partida representa o esgotamento de uma voz direta sobre um capítulo que moldou a tectônica de poder do século XX.
Nascida em Viena a 11 de maio de 1929, Eva Schloss mudou-se com a família para Amsterdã para escapar da perseguição nazista. Vivendo frente ao lar dos Frank, tornou-se amiga de Anne Frank. Em 1942, ambas as famílias buscaram refúgio no que ficou conhecido como o anexo secreto — cenário onde Anne escreveu o diário que se tornaria pedra angular para a compreensão da perseguição aos judeus e da vida cotidiana daqueles forçados ao esconderijo. Anne faleceu em Bergen-Belsen em outubro de 1944, vítima de tifo; Otto Frank foi o único sobrevivente direto de sua família.
O destino da família Geiringer tomou um rumo trágico em 1944, quando foram denunciados por uma colaboracionista e deportados a Auschwitz. Eva e sua mãe, Elfriede, sobreviveram ao campo; o pai, Erich, e o irmão, Heinz, foram assassinados. Após a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, em 27 de janeiro de 1945, mãe e filha retornaram à Holanda. Eva retomou os estudos e cursou História da Arte na Universidade de Amsterdã. Em novembro de 1953, Elfriede casou-se com Otto Frank, costurando uma ligação familiar e moral com a memória de Anne.
Posteriormente, Eva foi para a Inglaterra estudar fotografia, onde conheceu Zvi Schloss — ele próprio filho de um prisioneiro de Dachau — e ali constituiu família, naturalizando-se britânica. Notavelmente, Eva optou por não declarar publicamente suas experiências em Auschwitz-Birkenau até a morte de Otto Frank, em 1980. Observando o empenho do padrasto em preservar a memória de Anne, decidiu prolongar esse compromisso: passou a testemunhar em escolas e universidades, participando da fundação do Anne Frank Trust UK e transformando sua vida em ensino.
A trajetória de Eva Schloss foi também dramatizada em peças, como a obra de James Still “And Then They Came for Me – Remembering the World of Anne Frank”, que narra o diário de uma juventude marcada pela perseguição. Ao longo de décadas, foi uma educadora incansável da memória da Shoah, dedicada à compreensão e à promoção da paz — um propósito que, do ponto de vista estratégico, manteve aceso o alicerce moral contra o revisionismo e o esquecimento.
Em termos de legado, a sua voz funcionou como um farol diplomático: lembrete da responsabilidade coletiva de estados e sociedades em preservar a dignidade humana e resistir às forças que corroem a convivência civilizada. Sua morte não é apenas um luto privado; é uma chamada à vigilância democrática sobre os vetores que geram ódio e exclusão.
Eva Schloss Geiringer parte deixando um legado de testemunho e uma lição geopolítica: a memória é estratégia — sem ela, os alicerces da paz permanecem frágeis.































